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A mostrar mensagens de Agosto, 2015

O erro do escritor

«Com a associação a estes homens adquiri um novo vício: um orgulho doentio e a convicção insana de que a minha vocação era ensinar pessoas sem saber o que ensinava. Agora, quando penso nesse período e no meu estado mental e no dos que me rodeavam (dá-se o acidente de hoje existirem aos milhares), sinto-me triste, péssimo, ridículo; e crescem em mim os mesmos sentimentos que por certo acometerão aqueles que se vêem internados numa casa de loucos.»
Nota: Em virtude da tradução pouco feliz que compromete o sentido original, atrevi-me a alterar alguns vocábulos e construções frásicas (procurando, no entanto, não mexer demasiado no trabalho da tradutora). 
Lev Tolstoi, Confissão Tradução do inglês (lamentavelmente torta, ao ponto da ininteligibilidade): Zélia Évora Edição: Alêtheia Editores

A caminho da eternidade e mais um dia

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Contagem

Mil mortes tem o homem. Antes da derradeira. 997, acaba ele de dizer.  Qual será a ordem da contagem?

A velocidade e o espaço

[...] Agora os dias passam depressa e as noites devagar e há menos tempo que lugar.
Manuel António Pina, «Como quem liberto de» Incluído em Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

The Catcher in the Rye

«The mark of the immature man is that he wants to die nobly for a cause, while the mark of the mature man is that he wants to live humbly for one.»
J.D. Salinger, The Catcher in the Rye

The Night

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You're the night, Lilah, a little girl lost in the woods
You're a folk tale, the unexplainable

You're a bedtime story, the one that keeps the curtains closed
And I hope you're waiting for me, 'cause I can make it on my own
I can make it on my own

It's too dark to see the landmarks, and I don't want your good luck charms
I hope you're waiting for me across your carpet of stars

You're the night, Lilah, you're everything that we can see
Lilah, you're the possibility

You're the bedtime story, the one that keeps the curtains closed
And I hope you're waiting for me, 'cause I can make it on my own
I can make it on my own

Unknown the unlit world of old, you're the sounds I never heard before
Off the map where the wild things grow, another world outside my door

Here I stand I'm all alone, drive me down the pitch black road
Lilah, you're my only home and I can't make it on my own

You're the bedtime story, the one that keeps the curtain…

Terá Beckett razão?

Começo a perguntar-me se o importante é estar atento aos sobressaltos ou levar sempre na mão a terapêutica mala da cegueira.

Snob, com propriedade

Há uma livraria melhor que as outras. Há um catálogo melhor que os outros. Há um livreiro melhor que os outros.
Quando entrei, um assombro: os livros pareciam ter sido ali colocados de propósito para mim. Grande parte dos títulos figurava na minha biblioteca privada, mas aos poucos fui deparando com os que nela faltam, como se estivessem à minha espera, acolhendo-me e segredando-me: «Bem-vindo ao teu mundo.» 
Falo da Snob — em Guimarães —, gerida (e muitas coisas mais) pelo Duarte: afável, generoso e apaixonado livreiro que conhece os livros como poucos — a frente e o avesso, as lombadas, as badanas, as dobras nos cantos, o papel, o cheiro, a origem, a história: quem os precedeu e os materializou e lhes deu forma. Sabe as edições, percebe-lhes a importância, preza-as, e (coisa rara) atenta nos tradutores — essas figuras maiores guardadas em pequenas gavetas. Em suma, sabe os livros. E orgulha-se com brilho nos olhos e enlevo na voz da torre que vai construindo: um torre-casa, arrisco…

Os dedos

Quem tanto tempo se cala julga-se morto, e morto deveria julgar-se. Mas por vezes é preciso um sono longo.  O corpo ainda está entorpecido, o espírito também, mas os dedos ainda mexem, e, num capricho de bebé com fome, inquietaram-se e lançaram-se às palavras.  Eis, pois, o mais importante: estar atento à vontade dos dedos.