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A raiz da árvore

«Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.»
Afonso Cruz, Os Livros Que Devoraram o Meu Pai Edição: Caminho

Três parágrafos de Raul Brandão

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Num banco de jardim

Um rapaz aproximou-se dele. —Está tudo bem, senhor? O homem fitou-o, calado. — Está muito calor — continuou. — Talvez devesse tirar a gabardina, ou ir para debaixo de uma árvore. Esse banco deve queimar. — Fez uma pausa para retirar um isqueiro do bolso. — Permita que lhe acenda o cachimbo.   —Leve-me a outro café, por favor. —Como? —A outro café. —Mas está num jardim, senhor. Riu. Um riso agridoce. — Vejo mal ao longe (excepto as mãos, nisso sou um especialista), e por isso preciso da sua ajuda. —Da minha ajuda?  —Sim. Preciso que me ajude a reconhecer a minha mulher. O rapaz sentiu um abalo, e depois medo. — Desde que apareceu no jornal, nunca mais a vi. Queria dizer-lhe que estava muito bonita na fotografia. E que o textinho de homenagem por baixo era muito bonito. — Fixou-se no rapaz como se quisesse entrar-lhe nos olhos que agora eram de pânico. — Não vai dizer que não a este simples pedido, pois não, meu rapaz? — Não, não vou. Eu ajudo-o, não se preocupe. — Vamos, então. — …

O real e o ficcionado

«Às vezes interrogo-me por que razão não sabemos interpretar a vida com a mesma nitidez, com a mesma equanimidade, que um filme ou um romance. E penso que mais valia tentar vê-la sempre assim, como uma representação fictícia, confiando acima de tudo no nosso instinto de espectadores ou leitores, que falha muito menos que o nosso discernimento de cidadãos.»
Javier Marías, Selvagens e Sentimentais - Histórias do Futebol Edição: Dom Quixote Tradução: Salvato Telles de Menezes

Um agradecimento atrasado

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A todos os presentes, e aos ausentes por motivos de força maior, muito obrigado.

O aviso final de George Orwell

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Não há qualquer registo filmado de George Orwell, mas as palavras são suas, ipsis verbis.


Como um pássaro pendurado

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Retratos que se multiplicam

No regresso a casa, aperta as carnes e trinca os lábios. Perdeu a paciência para o próprio corpo, o que equivale a dizer que perdeu a paciência para o próprio íntimo. Como pode alguém viver nesse estado?, pensariam os seus conhecidos acaso existissem.

Os verdes anos de Ingmar Bergman

«Estou convencido de que, dos três filhos, fui eu quem sofreu menos porque me tornei um perito da mentira. Criei em mim uma outra pessoa que, exteriormente, nada tinha a ver com o meu verdadeiro eu. E como não fui capaz de manter separados o que eu era, propriamente, e a criação que fizera de mim, esta ferida teve consequências mesmo até na idade adulta e na minha criatividade. Quantas vezes não tive de me consolar com a máxima: "Quem viveu de uma mentira é porque, no fundo, ama a verdade".»
Ingmar Bergman, Lanterna Mágica Edição: Relógio d'Água Tradução e notas: Alexandre Pastor

Aquele que sempre me acompanha

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Imune a disposições, inclinações ou obsessões, eis o livro a que sempre regresso, como se no seu interior estivessem todos os outros.

Trabalhador in/de/pendente

Já gostei do meu país. Palavra de honra que sim. Mas desde que sou trabalhador independente, não consigo. E não ousem pedir-me para regressar a esse amor antigo.

A mão que alimenta

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1984

«Ele era um fantasma solitário dizendo uma verdade que nunca ninguém viria a ouvir. Mas enquanto a dissesse, a continuidade, de forma obscura, não seria quebrada. Não fazendo-se ouvir, mas mantendo-se mentalmente são, ele prolongava a herança humana. Voltou a sentar-se à mesa, molhou a caneta no tinteiro e escreveu:
Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e não vivam sozinhos - a um tempo em que a verdade exista e o que for feito não possa ser desfeito: Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplopensar - eu vos saúdo!
Era um homem morto, pensou. Só agora, que começara a conseguir formular os seus pensamentos, lhe parecia ter dado o passo decisivo. As consequências de cada acto estão contidas no próprio acto. Escreveu:
O pensarcrime não provoca a morte: o pensarcrime é a morte.»
George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro Edição: Antígona Tradução: Ana Luísa Faria