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Some are born to sweet delight, some are born to endless night

O único antídoto para a maldita (ou bendita?) hiperconsciência é o paroxismo.  Não esquecer, contudo, as potencialidades da paz química.

Burn it, Montag

«Colored people don't like Little Black Sambo. Burn it. White people don't feel good about Uncle Tom's Cabin. Burn it. Someone's written a book on tobacco and cancer of the lungs? The cigarette people are weeping? Burn the book. Serenity, Montag. Peace, Montag. Take your fight outside. Better yet, into the incinerator. Funerals are unhappy and pagan? Eliminate them, too. Five minutes after a person is dead he's on his way to the Big Flue, the Incinerators serviced by helicopters all over the country. Ten minutes after death a man's a speck of black dust. Let's not quibble over individuals with memoriams. Forget them. Burn all, burn everything. Fire is bright and fire is clean.»
Ray Bradbury, Fahrenheit 451 Edição: Simon & Schuster

Paper burns at Fahrenheit 451, but so do people

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"O Poldro", de Mikhail Cholokhov

«Os cereais estalavam na penumbra silenciosa, um raio de Sol oblíquo penetrava por uma frincha da porta da cavalariça e desfazia-se em grãozinhos dourados, como se tivesse sido amolado. A luz que batia na face esquerda de Trafime matizava-lhe de vermelho o bigode ruivo e a barba por fazer; as pregas da boca semelhavam regos tortos e escuros. O poldro, patazinhas delgadas e felpudas, parecia um cavalinho de madeira. - Mato-o? - O polegar de Trafime, carcomido pelo tabaco, curvou-se na direcção do poldro. A égua revirou o globo ocular, tinto de sangue, e piscou maliciosamente um olho ao dono.»
Mikhail Cholokov, O Rio e a Guerra Edição: Campo das Letras Tradução: Alexandre Bazine (com colaboração de José Augusto)

Um poema de Manuel António Pina

«Só mais um dia,
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro,
um dia bastaria,
em prosa que fosse.

Mas dá-me para a melancolia,
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas
de pão na mesa, as falhas
da pintura no tecto,
as vozes das visitas, despropositadas,
sinto-me sujo como um objecto,
desapegado, desarrumado.

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
- no quarto e no coração.»

Manuel António Pina, Todas as Palavras
Edição: Assírio & Alvim

A raiz da árvore

«Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.»
Afonso Cruz, Os Livros Que Devoraram o Meu Pai Edição: Caminho

Três parágrafos de Raul Brandão

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Num banco de jardim

Um rapaz aproximou-se dele. —Está tudo bem, senhor? O homem fitou-o, calado. — Está muito calor — continuou. — Talvez devesse tirar a gabardina, ou ir para debaixo de uma árvore. Esse banco deve queimar. — Fez uma pausa para retirar um isqueiro do bolso. — Permita que lhe acenda o cachimbo.   —Leve-me a outro café, por favor. —Como? —A outro café. —Mas está num jardim, senhor. Riu. Um riso agridoce. — Vejo mal ao longe (excepto as mãos, nisso sou um especialista), e por isso preciso da sua ajuda. —Da minha ajuda?  —Sim. Preciso que me ajude a reconhecer a minha mulher. O rapaz sentiu um abalo, e depois medo. — Desde que apareceu no jornal, nunca mais a vi. Queria dizer-lhe que estava muito bonita na fotografia. E que o textinho de homenagem por baixo era muito bonito. — Fixou-se no rapaz como se quisesse entrar-lhe nos olhos que agora eram de pânico. — Não vai dizer que não a este simples pedido, pois não, meu rapaz? — Não, não vou. Eu ajudo-o, não se preocupe. — Vamos, então. — …

O real e o ficcionado

«Às vezes interrogo-me por que razão não sabemos interpretar a vida com a mesma nitidez, com a mesma equanimidade, que um filme ou um romance. E penso que mais valia tentar vê-la sempre assim, como uma representação fictícia, confiando acima de tudo no nosso instinto de espectadores ou leitores, que falha muito menos que o nosso discernimento de cidadãos.»
Javier Marías, Selvagens e Sentimentais - Histórias do Futebol Edição: Dom Quixote Tradução: Salvato Telles de Menezes

Um agradecimento atrasado

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A todos os presentes, e aos ausentes por motivos de força maior, muito obrigado.

O aviso final de George Orwell

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Não há qualquer registo filmado de George Orwell, mas as palavras são suas, ipsis verbis.


Como um pássaro pendurado

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Retratos que se multiplicam

No regresso a casa, aperta as carnes e trinca os lábios. Perdeu a paciência para o próprio corpo, o que equivale a dizer que perdeu a paciência para o próprio íntimo. Como pode alguém viver nesse estado?, pensariam os seus conhecidos acaso existissem.