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No Top 10

Com muita honra, mas também certa estupefacção, eis-me na lista dos 10 melhores do ano, ao lado de  livros extraordinários. As escolhas são de Mário Rufino.
Para ver aqui.

Da minha janela

Da minha janela vejo o velho remexer no saco plástico. Sentado no banco de tábuas podres, retira um casaco quente. Abre-o, estende-o ao seu lado, nas costas do banco, observa-o como a uma mulher bela. Depois dobra-o e, por fim, acaricia-o com as mãos lentas e trémulas da velhice e da miséria. Volta a enfiá-lo no saco, atenta nos prédios em volta, nas pessoas que passam, sorrindo para as suas costas. A seguir levanta-se, de saco em punho, e começa a caminhar devagar. Detém-se na porta de um prédio. Vai entrar!, Vai entrar!, Entra!, Entra na tua casa! No entanto retoma o passo, arrastando as botas gastas. Segue o seu caminho, já vai longe, e reparo agora que quem sorri para as costas de alguém sou eu.

Tarp

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O bambu e o carvalho

Entre bambu e carvalho, ser bambu. Abana, mas não cai ao vento - conhece muitos sítios, contrariamente ao carvalho estático.  E na trovoada, o carvalho não escapa ao raio e desfaz-se; o bambu esquiva-se e mantém-se vivo. E se te perguntarem agora: entre frágil e forte, o que ser?

A velocidade do tempo

«A velocidade do tempo é infinita, e só quando olhamos para o passado é que temos consciência disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo.»
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio Edição: Fundação Calouste Gulbenkian Tradução, prefácio e notas: J. A. Segurado e Campos

As pontas dos dedos

Viver como não vivendo, já esquecido dos olhos, dos ouvidos, do nariz, da boca.  Apenas observando através do vidro as pontas dos dedos, à espera que delas nasça qualquer coisa.

Os Cães de Tessalónica

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Apesar de inferior a Um Repentino Pensamento Libertador ou Uma Vasta e Deserta Paisagem, neste Os Cães de Tessalónica, Kjell Askildsen confirma os motivos que me levam a considerá-lo o mais interessante contista europeu contemporâneo.

Some are born to sweet delight, some are born to endless night

O único antídoto para a maldita (ou bendita?) hiperconsciência é o paroxismo.  Não esquecer, contudo, as potencialidades da paz química.

Burn it, Montag

«Colored people don't like Little Black Sambo. Burn it. White people don't feel good about Uncle Tom's Cabin. Burn it. Someone's written a book on tobacco and cancer of the lungs? The cigarette people are weeping? Burn the book. Serenity, Montag. Peace, Montag. Take your fight outside. Better yet, into the incinerator. Funerals are unhappy and pagan? Eliminate them, too. Five minutes after a person is dead he's on his way to the Big Flue, the Incinerators serviced by helicopters all over the country. Ten minutes after death a man's a speck of black dust. Let's not quibble over individuals with memoriams. Forget them. Burn all, burn everything. Fire is bright and fire is clean.»
Ray Bradbury, Fahrenheit 451 Edição: Simon & Schuster

Paper burns at Fahrenheit 451, but so do people

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"O Poldro", de Mikhail Cholokhov

«Os cereais estalavam na penumbra silenciosa, um raio de Sol oblíquo penetrava por uma frincha da porta da cavalariça e desfazia-se em grãozinhos dourados, como se tivesse sido amolado. A luz que batia na face esquerda de Trafime matizava-lhe de vermelho o bigode ruivo e a barba por fazer; as pregas da boca semelhavam regos tortos e escuros. O poldro, patazinhas delgadas e felpudas, parecia um cavalinho de madeira. - Mato-o? - O polegar de Trafime, carcomido pelo tabaco, curvou-se na direcção do poldro. A égua revirou o globo ocular, tinto de sangue, e piscou maliciosamente um olho ao dono.»
Mikhail Cholokov, O Rio e a Guerra Edição: Campo das Letras Tradução: Alexandre Bazine (com colaboração de José Augusto)

Um poema de Manuel António Pina

«Só mais um dia,
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro,
um dia bastaria,
em prosa que fosse.

Mas dá-me para a melancolia,
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas
de pão na mesa, as falhas
da pintura no tecto,
as vozes das visitas, despropositadas,
sinto-me sujo como um objecto,
desapegado, desarrumado.

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
- no quarto e no coração.»

Manuel António Pina, Todas as Palavras
Edição: Assírio & Alvim

A raiz da árvore

«Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado.»
Afonso Cruz, Os Livros Que Devoraram o Meu Pai Edição: Caminho