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A mulher no café

Hoje, no café, a mulher sentada na mesa do canto comia sopa voltada para a parede. Não mexia a cabeça, como se estivesse de castigo.  Consegui ver-lhe a cara, de raspão, quando fui à casa de banho. Ela desviou-se, como se estivesse de castigo.  No regresso à minha mesa, apressei-me, tinha de a encontrar. Procurei na ementa (duas vezes a percorri), mas não existia. Onde estava a sopa de lágrimas?

Afonso Cruz e a imaginação prodigiosa

«2 de Outubro
Uma só letra é muito importante.
Se não fosse o «g», o gastrónomo tinha de se dedicar às estrelas e aos planetas.»
Afonso Cruz, O Livro do Ano Edição: Editora Objectiva (Alfaguara)

O silêncio

Tenho milhares de histórias na cabeça, mas não as escrevo por respeito à história que me trouxe até elas.

(A) contradição do sobreiro

«A vida descreve-se pela contradição do sobreiro: o jovem não tem paciência para esperar meio século para que a árvore cresça e seja adulta. Por isso, não a planta. Quando chega a velho e, finalmente, tem paciência para esperar, planta-a, mas já não tem tempo para a ver crescer.»
Afonso Cruz, em Enciclopédia da Estória Univeral - Recolha de Alexandria Edição: Alfaguara

Casa, quarto, cama

«Num quarto desconhecido temos de nos esvaziar para dormir...»

Alison Bechdel, Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar Edição: Contraponto Tradução: Duarte Sousa Tavares

Fun Home, a casa de qualquer um de nós

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No Top 10

Com muita honra, mas também certa estupefacção, eis-me na lista dos 10 melhores do ano, ao lado de  livros extraordinários. As escolhas são de Mário Rufino.
Para ver aqui.

Da minha janela

Da minha janela vejo o velho remexer no saco plástico. Sentado no banco de tábuas podres, retira um casaco quente. Abre-o, estende-o ao seu lado, nas costas do banco, observa-o como a uma mulher bela. Depois dobra-o e, por fim, acaricia-o com as mãos lentas e trémulas da velhice e da miséria. Volta a enfiá-lo no saco, atenta nos prédios em volta, nas pessoas que passam, sorrindo para as suas costas. A seguir levanta-se, de saco em punho, e começa a caminhar devagar. Detém-se na porta de um prédio. Vai entrar!, Vai entrar!, Entra!, Entra na tua casa! No entanto retoma o passo, arrastando as botas gastas. Segue o seu caminho, já vai longe, e reparo agora que quem sorri para as costas de alguém sou eu.

Tarp

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O bambu e o carvalho

Entre bambu e carvalho, ser bambu. Abana, mas não cai ao vento - conhece muitos sítios, contrariamente ao carvalho estático.  E na trovoada, o carvalho não escapa ao raio e desfaz-se; o bambu esquiva-se e mantém-se vivo. E se te perguntarem agora: entre frágil e forte, o que ser?

A velocidade do tempo

«A velocidade do tempo é infinita, e só quando olhamos para o passado é que temos consciência disso. O tempo ilude quem se aplica ao momento presente, de tal modo é insensível a passagem do seu curso vertiginoso. Queres saber porquê? Porque todo o tempo passado se acumula num mesmo lugar; todo o passado é contemplado em bloco, forma uma totalidade; todo ele se precipita no mesmo abismo.»
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio Edição: Fundação Calouste Gulbenkian Tradução, prefácio e notas: J. A. Segurado e Campos

As pontas dos dedos

Viver como não vivendo, já esquecido dos olhos, dos ouvidos, do nariz, da boca.  Apenas observando através do vidro as pontas dos dedos, à espera que delas nasça qualquer coisa.

Os Cães de Tessalónica

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Apesar de inferior a Um Repentino Pensamento Libertador ou Uma Vasta e Deserta Paisagem, neste Os Cães de Tessalónica, Kjell Askildsen confirma os motivos que me levam a considerá-lo o mais interessante contista europeu contemporâneo.