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Para Onde Vão os Guarda-Chuvas

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Este ano, depois de ter descoberto (tardiamente) Pedro Páramo, de Juan Rulfo, julgava que tudo quanto viesse a ler ficaria muito aquém. Engano meu — e ainda bem. É um prazer constatar como Afonso Cruz tem voado alto, à altura destes seus «guarda-chuvas».

O meu maior medo

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O combustível da criação

«[...] E nada nos identifica mais do que a ignorância daquilo que somos.»
Carlos Fuentes

Onde começa a felicidade, começa o silêncio

«Recriminam-se os escritores pela sua inclinação para abordarem temas sombrios, tristes, dramáticos, sórdidos e nunca ou quase nunca felizes. Não creio que isso seja fruto de uma preferência, mas da impossibilidade de contornar um obstáculo. Sucede que a felicidade é indescritível, não de pode declinar a felicidade. É por isso que os contos populares e os contos para crianças — e inclusive os filmes americanos com happy end — acabam sempre com uma fórmula deste género: 'Casaram e foram muito felizes para sempre.' Ali o narrador detém-se, pois já não tem mais nada para dizer. Onde começa a felicidade, começa o silêncio.»
Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas Edição: Ahab Tradução: Tiago Szabo

Em modo furioso

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Fahrenheit 451 em menos de 3 minutos

Foi-me enviado por um tipo chamado Jack Collins. Vejam. Vale a pena.
http://academicearth.org/electives/tldr-fahrenheit-451/

A arte fugidia do conto

Arte do conto: sensibilidade para perceber os significados das coisas. Se eu disser «O homem do bar é calvo», estou a fazer uma observação pueril. Mas posso também dizer: «Todas as calvícies são infelizes, mas há calvícies que inspiram uma profunda comiseração. São as calvícies obtidas sem glória, fruto da rotina e não do prazer, como a do homem que ontem bebia uma cerveja no Violín Gitano. Ao vê-lo, dizia para comigo: 'Em que dependência pública terá este cristão perdido os seus cabelos!'» Contudo, talvez resida na primeira fórmula a arte de escrever contos.
Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas Edição: Ahab  Tradução (a raiar a perfeição): Tiago Szabo

Onde estamos agora?

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A passear os mortos.


O espírito atormentador

"O espírito atormentador vive na floresta. Numa cabana há muito abandonada, dos velhos tempos dos carvoeiros. Ao entrar, nota-se apenas um cheiro a mofo impossível de eliminar, e é tudo. Mais pequeno que o mais minúsculo rato, invisível mesmo a um olho que se aproxime, o espírito atormentador esgueira-se para um canto. Nada se nota, mesmo nada, a floresta rumoreja calmamente pelo buraco vazio da janela. Quanta solidão aqui e como isto te vem mesmo a calhar. É aqui no canto que vais dormir. Porque não na floresta, onde o ar circula livre? Porque agora já estás aqui seguro numa cabana, embora a porta tenha há muito caído dos gonzos e esteja gasta. Mas tu andas ainda às apalpadelas no ar como se quisesses fechar a porta, depois deitas-te."
Franz Kafka, Cadernos in octavo Edição: Assírio & Alvim (Os Contos - 2º volume) Tradução: Teresa Seruya

A mulher no café

Hoje, no café, a mulher sentada na mesa do canto comia sopa voltada para a parede. Não mexia a cabeça, como se estivesse de castigo.  Consegui ver-lhe a cara, de raspão, quando fui à casa de banho. Ela desviou-se, como se estivesse de castigo.  No regresso à minha mesa, apressei-me, tinha de a encontrar. Procurei na ementa (duas vezes a percorri), mas não existia. Onde estava a sopa de lágrimas?

Afonso Cruz e a imaginação prodigiosa

«2 de Outubro
Uma só letra é muito importante.
Se não fosse o «g», o gastrónomo tinha de se dedicar às estrelas e aos planetas.»
Afonso Cruz, O Livro do Ano Edição: Editora Objectiva (Alfaguara)

O silêncio

Tenho milhares de histórias na cabeça, mas não as escrevo por respeito à história que me trouxe até elas.

(A) contradição do sobreiro

«A vida descreve-se pela contradição do sobreiro: o jovem não tem paciência para esperar meio século para que a árvore cresça e seja adulta. Por isso, não a planta. Quando chega a velho e, finalmente, tem paciência para esperar, planta-a, mas já não tem tempo para a ver crescer.»
Afonso Cruz, em Enciclopédia da Estória Univeral - Recolha de Alexandria Edição: Alfaguara