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Take me to my mini mansion

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A arte do esquecimento

Calcar, calcar, calcar. Uma e outra vez. Mais eis que quando o quarto se esvazia para dormires, a memória te sobe das plantas dos pés e se desenha num filme que te entra nos sonhos.

O engano do gesto

Se te colocarem um braço em redor da cintura, poderás ver nisso um gesto de carinho (ou mesmo de sedução disfarçada), mas há aqueles cuja inveja dos gestos não conhece pudor. Se te colocarem um braço em redor da cintura, poderão muito bem estar a competir contigo a escassez de carnes moles.

O belo é o feio é o belo

Lamentar a fealdade é coisa de tonto. Não subestimes a inteligência do tempo e da paisagem.
Olha durante anos para a árvore que cresce no cimento. Olha durante anos para a floresta. Uma década depois, irás ao encontro de qual?
Os feios crescem; os belos diminuem. E é tudo.

Caderno de Mentiras na Companhia dos Livros (JNLive)

Por norma tenho um certo pudor em publicitar o meu próprio trabalho, mas eis a partilha de um vídeo que me enviaram:
http://www.jn.pt/live/Programas/default.aspx?content_id=4016612&seccao=Livros

O gesto de ferir e cauterizar a ferida

«Fui amado pela minha mãe. Quero dizer, era o seu preferido. Isso salvou-me. Tenho a meu respeito a ideia, absurda, de que me salvei. De quê? Do inferno, antes de mais nada. A ideia da salvação, na nossa cultura (no nosso mundo), está mais associada a evitar o inferno do que a conquistar o céu. Em que teria consistido o inferno? Em ser um indivíduo opaco, intransitivo, sem interesses culturais, sem inquietudes filosóficas, sem ambições literárias, talvez sem tendências burguesas.
A minha mãe salvou-me? Talvez sim, mas no mesmo instante em que me perdeu. Agiu, pois, como o bisturi eléctrico do meu pai, que feria e cauterizava a ferida ao mesmo tempo. Às vezes sonho com uma escrita que me afunde e me eleve, que me adoeça e me cure, que me mate e me dê vida.»
Juan José Millás, O Mundo Tradução: Luísa Diogo e Carlos Tavares Edição: Planeta

Raymond Chandler

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Raymond Chandler, À Beira do Abismo Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues Edição: Porto Editora
Muito mais do que um policial, À Beira do Abismo é literatura inteira, maiúscula. Ao lado disto — com a honrosa excepção de Elmore Leonard —, toda a prosa na esfera do policial parece pedestre, desajeitada até, uma coisa por ser.

O engano da identidade

Há quem repita mil vezes uma mentira para fugir da verdade e há quem repita mil vezes uma verdade para fugir da mentira.

Uma (quase) rima colérica

Tão bom quando um revisor nos arruina uma tradução.

O escritor e o fonógrafo

«O escritor está na situação de um mudo atado de mãos e pés, incumbido de pôr a funcionar um fonógrafo fazendo girar a manivela com o nariz.»
Boris Vian, Boris Vian por Boris Vian — Palavras e Aforismos Edição: Fenda Tradução: Sarah Adamopoulos

A partida e o regresso

O regresso é sempre mais fácil do que a partida. Não admira, pois, que muitos de nós optemos por ficar. Mas sem nunca experimentarmos a apaziguadora e reconfortante sensação do regresso.

Fumadores, esses criminosos

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Depois de um episódio passado hoje num café, lembrei-me desta crónica do Vasco Pulido Valente e resgatei-a. Como me soube bem o cigarro (ao ar livre) após as duas bestas equipadas a rigor para o seu jogging matinal se deram a conhecer como tal.



O universo é um ponto

Juan José Millás diz que o mundo é a rua da nossa infância. Muito antes, Tolstói dissera basicamente o mesmo, ao afirmar algo como: «se queres ser universal nunca deverás sair da aldeia onde nasceste.»
A minha rua era bizarra: havia crianças que queimavam ratazanas em fogueiras, a precocidade da sexualidade escandalizaria os mais liberais, as pedras contavam-se entre os brinquedos favoritos, morriam pessoas de mortes cruéis — da overdose ao suicídio. 
Assim sendo, que mundo é o meu?