Mensagens

A paisagem da clausura

Imagem

O colo

No espírito do homem, mesmo adulto e feito, apenas uma paisagem sobrevive, intacta, ao tempo — e no desespero, ou face à aproximação de sentimento semelhante, agiganta-se até nada mais existir.
Mesmo os velhos sentirão, neste ou naquele momento, a vontade do colo materno. Porque a maior parte do tempo andamos descalços e de bússola avariada e queremos correr em direcção àquela imagem, mesmo que ceifada pela geografia ou pela morte.

Mister Master Joey Baron on the drums

Imagem

Do tempo

«[...] Houve um momento, quando tinha vinte e muitos anos, em que reconheci que o meu espírito de aventura se extinguira há muito. Nunca faria aquelas coisas que a adolescência sonhara. Em vez disso aparava a relva, ia de férias, tinha a minha vida. Mas o tempo... o tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensávamos que estávamos a ser adultos quando estávamos só a ser prudentes. Imaginávamos que estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e não de as enfrentar. Tempo... deem-nos tempo suficiente e as nossas decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas, bizarras.»
Julian Barnes, O Sentido do Fim Tradução: Helena Cardoso Edição: Quetzal

«So long, [...]» Cohen encarrega-se de dizer o resto

Ontem o adeus de passagem. Antes do olá. Para quê ter voltado atrás? O passeio já estava vazio. Nele passava apenas o vento das memórias por ser. O passeio já estava vazio. E eu passei a ser o passeio.
«So long, [...]» Cohen encarrega-se de acrescentar o resto.

Organização

«Não mas compreendam eu tenho de explicar tudo isto porque não sei, não sabemos quanto tempo me resta e preciso de trabalhar no, de terminar este trabalho enquanto, bom trouxe para aqui esta pilha de livros apontamentos papéis recortes e sabe Deus que mais, tenho de pôr ordem nisto tudo deixar as coisas organizadas para repartir os meus bens e arrumar de vez com todas as preocupações e consumições anexas enquanto aqui estou para ser aberto e raspado e cosido e aberto novamente esta maldita perna olha para isto, toda coberta de grampos parece aquela armadura japonesa antiga da sala de jantar sinto-me como se estivesse a ser desmantelado peça a peça [...]»
William Gaddis, ágape, agonia Tradução: José Miguel Silva Edição: Ahab

Desequilíbrio

Imagem
Philip Roth, Os Factos
Tradução: Francisco Agarez
Edição: D. Quixote

Take me to my mini mansion

Imagem

A arte do esquecimento

Calcar, calcar, calcar. Uma e outra vez. Mais eis que quando o quarto se esvazia para dormires, a memória te sobe das plantas dos pés e se desenha num filme que te entra nos sonhos.

O engano do gesto

Se te colocarem um braço em redor da cintura, poderás ver nisso um gesto de carinho (ou mesmo de sedução disfarçada), mas há aqueles cuja inveja dos gestos não conhece pudor. Se te colocarem um braço em redor da cintura, poderão muito bem estar a competir contigo a escassez de carnes moles.

O belo é o feio é o belo

Lamentar a fealdade é coisa de tonto. Não subestimes a inteligência do tempo e da paisagem.
Olha durante anos para a árvore que cresce no cimento. Olha durante anos para a floresta. Uma década depois, irás ao encontro de qual?
Os feios crescem; os belos diminuem. E é tudo.

Caderno de Mentiras na Companhia dos Livros (JNLive)

Por norma tenho um certo pudor em publicitar o meu próprio trabalho, mas eis a partilha de um vídeo que me enviaram:
http://www.jn.pt/live/Programas/default.aspx?content_id=4016612&seccao=Livros

O gesto de ferir e cauterizar a ferida

«Fui amado pela minha mãe. Quero dizer, era o seu preferido. Isso salvou-me. Tenho a meu respeito a ideia, absurda, de que me salvei. De quê? Do inferno, antes de mais nada. A ideia da salvação, na nossa cultura (no nosso mundo), está mais associada a evitar o inferno do que a conquistar o céu. Em que teria consistido o inferno? Em ser um indivíduo opaco, intransitivo, sem interesses culturais, sem inquietudes filosóficas, sem ambições literárias, talvez sem tendências burguesas.
A minha mãe salvou-me? Talvez sim, mas no mesmo instante em que me perdeu. Agiu, pois, como o bisturi eléctrico do meu pai, que feria e cauterizava a ferida ao mesmo tempo. Às vezes sonho com uma escrita que me afunde e me eleve, que me adoeça e me cure, que me mate e me dê vida.»
Juan José Millás, O Mundo Tradução: Luísa Diogo e Carlos Tavares Edição: Planeta