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A vida do faz-de-conta

Uma vida pela rama, sem trama nem drama, sossego na cama. Eis a vida de quem não ama.

Fuga

Andaste tão ocupado a fugir da coragem que agora não sabes o caminho de volta.

As portas da infância

«No one can explain exactly what happens within us when the doors behind which our childhood terrors lurk are flung open.»
W. G. Sebald, Austerlitz (edição inglesa) Tradução: Anthea Bell Edição: Penguin Books

One thing that is clear / it's all downhill from here

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A máquina de erro

O homem é governado por esse hábito ancestral de nunca dar um passo sem ter a certeza de que o movimento do pé culminará em solo firme. Até mesmo quando nele fervilha o impulso de ser feliz antes da altura certa. O cérebro humano é uma máquina que tenta antecipar-se ao tempo e, por isso mesmo, é, antes e acima de qualquer outra coisa, uma máquina de erro.

Do veneno do medo

«[...] 9457, crises, são apenas crises, 9500, o pai não consegue confiar no filho, nas palavras do filho, o pai só confia no que é capaz de criar a cada momento, mesmo que seja este medo de coisa inexplicável, 9660, na palidez da face do pai formam-se pequenas gotas de suor que o filho limpa enquanto garante que já falta pouco, 9780, o pai sente o coração acalmar na carne onde embate, o sangue abranda numa espécie de tranquilidade espessa, 9894, 9900, as crises vêm e vão, voltam cada vez mais depressa, 9958, vêm e vão, vêm e vão, demoram-se cada vez mais, 10 014, um dia será inútil contar, 10 049, o tempo desenrolar-se-á sem fim e não será possível escapar, 10 118, um dia, 10 134.»
Dulce Maria Cardoso, do conto «Pânico», incluido no volume Tudo São Histórias de Amor Edição: Tinta da China

Do movimento

Observar as coisas por trás para dar o passo em frente.

Silêncio

Chiu. Ouve. Ouve como o mundo se cala.

Coetzee e o ciclismo (e eu)

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Aquele irresistível sorriso, tão íntimo quanto infantil, de saber que entre nós e as nossas principais referências há pontos comuns.

Hertzog, essa criatura tão íntima

«Agora escreveu: Não se trata daquela longa doença, a minha vida, mas daquela longa convalescença, a minha vida. A revisão liberal-burguesa, a ilusão do progresso, o veneno da esperança.»
Saul Bellow, Herzog Tradução: Salvato Telles de Menezes Edição: Quetzal

A força do punho

Não ouses desafiar-me, no meu punho está a força de mil lágrimas choradas. Corarás de vergonha quando a pele da minha mão cerrada esbarrar na tua pele fortalecida à custa de mil sorrisos. É que, como por certo já terás percebido, o músculo depende do sítio onde depositas as derrotas e elevas as glórias. Mas também não é caso para chorares. Pronto, cedo-te um sorriso, por caridade.

Da vida

Alguns nascem encontrados para depois se perderem, outros nascem perdidos para depois se encontrarem.  Falta, porém, o essencial: o que define cada um dos adjectivos?

Hospital

Não, não, está enganado. Não é a viagem. O verdadeiro observatório do mundo é a sala de espera nas urgências de um hospital.