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O tradutor

O tradutor não tem tempo O tradutor é criticado por não ter tempo O tradutor explica que ser tradutor é não ter tempo Mas quem o critica não compreende A tradutor não tem sossego Vive com a corda ao pescoço Conta o tempo como o prisioneiro na cela Desejoso de concluir a empresa Sem esbarrar no prazo Para receber o que lhe paga o buraco (Sim, para quem não sabe, o tradutor vive num buraco) O tradutor trabalha doentiamente Sim, outra verdade Mas de que serve? De nada, como quase tudo no mundo do tradutor Mas o tradutor não reclama essa atenção Modesto como é, reclama somente a reserva Porque (nova verdade) O tradutor é invisível por defeito e definição E isso é do seu agrado Só não é do seu agrado Ser falado apenas naquele instante tão isolado Em que usou a palavra desviada Como se previamente a isso não houvesse uma história de mil sucessos É este o perigo da invisibilidade: A falha visível passa a ser a definição de quem a cometeu É este o grande prémio do tradutor: Uma plateia de…

Uma possibilidade arriscada

As pessoas são como os livros dispostos numa biblioteca imensa: as que nos reservam o fascínio da descoberta, a generosidade da proposta íntima, o mundo da verdade inteira, estão no recato dos lugares escondidos, serenamente à espera — ou talvez apenas serenamente, sem espera (por sugestão sua, arrisco. Por defeito e natureza, arrisco ainda).  E agora o outro lado, que é tão avesso quanto frente: Quantos se aninham ou ajoelham para descobrir o que se esconde por detrás de uma fiada de livros?

A verticalidade e a tragédia

Diz-se que o homem deve manter-se vertical face à tragédia, mas se a tragédia não é mais do que a força de ventos caprichosos (quantos dentro dela não o constataram?), o homem convocará (legitimamente) a dúvida fundamental: não será a queda tão mais rápida e violenta quanto mais vertical se estiver?

A sobrevivência é sempre um passo em frente

A lógica do pássaro (que também podia ser do cinema): recuar, afastar-se, subir, ver de cima, agora invisível por mais que procurem.

A escrita e a dança

Escrever é desafiar a doença, mas na escrita o desafio é dança, e quem dança abraça, e quem abraça chama, e quem chama apropria-se, e agora escrever é doença.

y a une distance à rêver entre la peau et l' éternité

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Alexandre Andrade — Quartos Alugados

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Numa altura em que abundam rasgados elogios à «nova geração» da literatura portuguesa (da qual — arrisco dizer — não sobreviverão mais de dois nomes), é com profundo agrado que assisto ao regresso de uma voz verdadeiramente singular.  Falo de Alexandre Andrade, e do seu Quartos Alugados, que viu a luz do dia graças à editora Exclamação e ao Rui Manuel Amaral, que coordena a colecção que o livro integra — a Avesso.   É coisa boa. Muito boa. Bem melhor do que por aí circula com pompa e circunstância, entre capelas e panelas. Tudo está muito bem medido e temperado, descolado de qualquer tendência que não a da verdade que o próprio autor define. E mesmo (ou será sobretudo?) aquilo que aparentemente poderá passar por pirueta não é senão um exercício de sátira.  Eis a proposta: Eu sei isto, sei como manipulá-lo, mas não quero fazê-lo, e, precisamente por isso, faço-o. Como resistir a semelhante provocação? 

Até ver, (de longe) o melhor livro que li em 2015

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Uma visão de existência (feliz?), por Walt Whitman

«Julgo que poderia mudar e viver com os animais, são tão plácidos e        tão independentes, Fico a olhar para eles um tempo infinito. Não se cansam nem se lastimam com a sua situação, Não ficam acordados na escuridão, nem choram os seus pecados, Não me enfadam com as suas discussões sobre os deveres para com        Deus, Nenhum se sente insatisfeito ou enlouquece com a obsessão de tudo        possuir, Nenhum se ajoelha perante outro, nem perante a sua espécie que        viveu há milhares de anos, Nenhum é respeitável ou infeliz à face da Terra.»
Walt Whitman, Folhas de Erva Tradução: Maria de Lourdes Guimarães Edição: Relógio D'Água

Uma prece de Flannery O'Connor

«Como é difícil manter uma dada intenção[,] uma dada postura em relação a uma obra [,] um dado tom[,] um dado seja o que for. Neste momento, sinto na minha alma uma certa paz que muito me agrada — não nos deixes cair em tentação. A qualidade das histórias é indiferente. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Meu bom Deus, deixa-me trabalhar, obriga-me a trabalhar. Desejo tanto poder trabalhar. Se o meu pecado é a preguiça, quero ser capaz de o vencer.»
Flannery O'Connor, Um Diário de Preces Tradução: Paulo Faria Edição: Relógio D'Água

O erro do escritor

«Com a associação a estes homens adquiri um novo vício: um orgulho doentio e a convicção insana de que a minha vocação era ensinar pessoas sem saber o que ensinava. Agora, quando penso nesse período e no meu estado mental e no dos que me rodeavam (dá-se o acidente de hoje existirem aos milhares), sinto-me triste, péssimo, ridículo; e crescem em mim os mesmos sentimentos que por certo acometerão aqueles que se vêem internados numa casa de loucos.»
Nota: Em virtude da tradução pouco feliz que compromete o sentido original, atrevi-me a alterar alguns vocábulos e construções frásicas (procurando, no entanto, não mexer demasiado no trabalho da tradutora). 
Lev Tolstoi, Confissão Tradução do inglês (lamentavelmente torta, ao ponto da ininteligibilidade): Zélia Évora Edição: Alêtheia Editores

A caminho da eternidade e mais um dia

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Contagem

Mil mortes tem o homem. Antes da derradeira. 997, acaba ele de dizer.  Qual será a ordem da contagem?