Do velho especado à porta do prédio o dia todo, ouço dizer:
«Que velho estranho.»
Ao que o pensamento (nunca a voz) me diz:
«Quantas histórias de coragem te farão descer cinco pisos diariamente?»
(Exclua-se por momentos o espírito.)
O que não nos mata, torna-nos mais aptos a matar.
(Recupere-se agora o espírito, e viva-se no conforto da tradição.)
Depois de meses de leituras insatisfeitas, escassas e algo frustrantes, finalmente deparo, quase por acidente, com uma edição brasileira do grande Eduardo Galeano, cujo Memória do Fogo: Os Nascimentos lera com profundo agrado aquando da sua publicação em Portugal.
Ei-lo, o livro, tão pequeno na dimensão quanto imenso no que guarda:
Entre o filho e o irmão, optou pelo segundo.
«Ao primeiro, deixei as pernas e o coração para andar; ao segundo, faltará o amparo do sangue e da memória até a última morada chegar.»
Um, ao primeiro sinal do terramoto, viu o coração parar. O outro, ao primeiro sinal do terramoto, agarrou a tábua. O primeiro nasceu no amor; o segundo passou a vida a procurá-lo.
A ficção é vida inteira. Mas tal ilusão só existe na medida em que ela se substitui (ou se antagoniza) àquela que, de tão povoada de seres feios, não tem morada para a serena sabedoria.