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Da tradução - Thomas Bernhard

«Uma tradução é um outro livro. Já não tem nada a ver com o original. É um livro daquele que o traduziu. É que eu escrevo em alemão. Depois os livros são-nos enviados para casa e ou dão prazer ou não dão. Quando têm capas horríveis, só nos irritamos, depois folheamo-los, e pronto. Além de um outro título arrevezado, não tem geralmente nada em comum com o que escrevemos. Não é? Não se pode realmente traduzir. Uma peça de música é tocada com as notas que lá estão em toda a parte do mundo. Mas um livro teria de ser em toda a parte, no meu caso, tocado em alemão. Com uma orquestra.»
Kurt Hofmann, Em Conversa com Thomas Bernhard Tradução: José A. Palma Caetano Edição: Assírio & Alvim

O tiro

O tiro a espreitar da culatra. Devagar, porque nestas coisas das letras, a carne é furada em lentidão e o homem sábio nunca é dado a pressas.

Da distância

Percorrida a linha da esquerda à direita da geografia, um continente é um lago, um bairro um oceano. Na cabeça, o espaço está a uma história de distância.

Da topografia

Confortável nos arrabaldes, desculpa-se com a escassez de dinheiro para uma casa no centro da consciência.

O silêncio é o novo estatuto

Dizem-mo repetidamente: escrevo mas não respondem. Tornou-se comum, este hábito de não responder a perguntas que requeiram resposta, de deixar mensagens importantes penduradas.  O que em tempos era sinal de consideração e educação, transfigurou-se hoje numa espécie de prova de estatuto — o estatuto do homem ocupado e acima das coisas menores, sobretudo (arrisco dizer) para aquele que é desocupado e não está acima de nada. Não me venham com a confortável almofada da voracidade dos dias (eu também a vivo). Há sempre um tempo, nem que seja para dizer: De momento, não me é possível responder.  Este silêncio que se tornou prática comum, revelador de uma profunda falta de elevação moral, é para mim um dos mais importantes sintomas do tempo adoecido em que vivemos. Deixar o outro pendurado é ser-se importante, é ser-se grande, é esticar as costas para olhar de cima. Para mim, é estupidez e má-criação. Um irreversível defeito de carácter que, pelo uso, passará a ser parte do carácter normal.…

Teatro Vertical (ao som de Kurt Weill)

Da importância das coisas

Quando essa bela e feérica cor põe mais de sessenta vidas a preto e branco, que mais importa? Tudo é nada. Convém não esquecer. Tudo é nada.

Da lúcida estranheza das coisas

Passeia com o espelho na mão e sorri às vestes de rei que o reflexo lhe devolve. Atrás de si caminha uma comitiva de homens minúsculos, não são anões, são homens grandes mas em ponto pequeno, homens à lupa, menores, também no tamanho. É isso que o espelho mostra, atrás da coroa. E o sorriso expande-se diante do espelho na mão, um sorriso onde acaba de cair uma sombra de carvão.
De cima, nas varandas, todos estranham a criatura suja e esfarrapada que passeia de punho no ar com cães de sarna e raiva a lamberem-lhe os calcanhares.
Mais acima, alguém esfrega uma folha de papel com uma borracha. Mas já é tarde. 

Três categorias

Disse um sonho:

Há três categorias de homens: os bons, os maus e os intermédios.

Os bons estão, pela ingenuidade, condenados.

Os maus estão, pelo mundo, abençoados.

Os intermédios estão, pelo meio, sufocados.

Quem o disse foi um sonho. Mas nele, estranhamente, só os últimos sobreviveram à catástrofe.

Q

Quando o pára-quedas está por um fio cansado, bastará a mais leve brisa. Quão violenta será a queda do que se julga em alto voo. Quão risível (e enternecedora) a máscara que dele se descolará.  Quase tanto como o rosto vazio que em vão desespero a tentará recuperar.

Chris Cornell (1964-2017)

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Há mortes que não deviam existir.  Por tudo quanto Chris Cornell significou nos meus verdes anos, por tudo quanto os Soundgarden me deram a ouvir, a saber e a ser, parte de mim também vai — colhida desse tempo fundamental que é o infinito jardim de possibilidades da tenra juventude. Estão a morrer-me tão depressa os que importam. Obrigado.

A elevação não é um escadote

Houve um tempo em que era assim: subir para ver as coisas de cima. A aspiração, porém, agora é outra: ver as coisas de baixo, de frente, dos lados, de dentro.  A subida é sempre um artifício, exercício ilusório em metal que não resiste à ferrugem do tempo.

I'll fight ya for it (Snatch)

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