Mensagens

Revolução em pleno século do ruído imbecil

 A suma coragem de permanecer em silêncio.

Literatura

 Mas fora da dor: tens alguma coisa digna de ser dita?

Faces deste lugar em queda

 Basta ver as duas faces verticais de um prédio: a fachada - revestida da melhor tinta, do mais higiénico brilho - e a face das traseiras, em cujos quartos todos dormem - velha, rachada, suja e podre. Ruirá em breve a mentira da fachada, já vem ruindo em lume mais-que-brando. A verdade está nas traseiras, onde o plebeu já passa fome para pagar uma cama pensada para o rei. 

Outras artes e ofícios

Muitos anos depois, voltei à origem. Traduziu-se esse regresso na composição e gravação de um EP intitulado Comala . Ei-lo: https://open.spotify.com/album/4GVKFQkmBg8wbtKCv49kgY?si=H8eh18f2TjKrd7m1uuVZ-A

A ausência esquecida

Quando o mal ou a tragédia nos acontecem, atribuímos à circunstância a culpa de tudo quanto nos angustia. No entanto, quem grita e chora e treme por dentro não é o sujeito fixado no seu lugar e no seu tempo, mas a ausência esquecida de uma mão que o amparasse quando no berço o amor fundamental — por distracção, indiferença, dor própria ou maldade — o negligenciava.    

Neurose

 A neurose é a cabeça que teme a loucura, ou o corpo deslocado do lugar, ou ainda — mais ao rés da verdade — a desculpa para não descer à cave.

Ser-se

Não há mais perigosa repressão do que a normalidade. 

Condição

 Caímos dentro da montra, convertendo a pele em vidro. Eis-nos agora transparentes - mas sem nada para mostrar nem ver.

Matemática

Mas não foi ainda inventada a matemática  das coisas elementares, um número ou equação que explique, por exemplo, a mão a caminho do peito.

Como um relógio sem tempo

  «Cuando la concreción del amor absoluto no es posible, quando solo puede realizarse el amor fisico o solo el amor intelectual, la acción de avanzar trae de la mano la verbalización del verbo parar. Si son nuestros cuerpos, hemos de parar las mentes. Si son nuestras mentes, debemos cesar el movimiento de los cuerpos, detener nuestras extremidades, nuestros bustos, nuestros rostros, como si fuésemos um reloj del que nos hubiesen extraído el tiempo.» Mondego , Rebeca Hernández, RiL editores, 2022

século XXI

Fugir da tristeza, da dor, do medo — eis o cego desígnio. Pode alguém ser fora de si?

Ou uma hipótese de felicidade

 Encontrar a palavra certa — quase como quem descobre o lírio nas trevas de um pesadelo.

partida-chegada

Cheguei convencido de ser outro. Entrei. Afinal era ainda amanhã.

Tropeções

Espírito livre em corpo preso. Eis o erro: confiar a vida à cabeça.

Da Pétala, Gume (ou de como rasurar o lirismo)

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Um Pássaro no Arame (através dos olhos da Sara Figueiredo Costa)

« Um Pássaro  no Arame , de Manuel Alberto Vieira, é um livro desconcertante — e o adjectivo não é aqui aplicado por ser sonante. Desconcerta, no verdadeiro sentido da palavra, esta narrativa de frases secas, curtas, simultaneamente descritivas da acção e reveladoras do labirinto que se guarda na cabeça de cada personagem. É uma narrativa estranha, porque essa secura o verbo contrasta intensamente com o que se vai revelando, mesmo que nada pareça acontecer (sobretudo aí, quando nada parece acontecer). Há uma linha cronológica e há personagens bem definidas, com uma caracterização psicológica extremamente minuciosa, que prescinde das grandes descrições de carácter e se forma pelo conjunto de gestos, indícios e pensamentos. Há acção e uma atenção ao detalhe com que esta se constrói, o texto sempre perseguindo os sinais, aquilo que se revela em cada movimento e em cada decisão das personagens. O que não há é uma estrutura que nos ampare enquanto lemos — e isso não é acidental, claro. ...

Um Pássaro no Arame

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Um Pássaro no Arame edição: Caixa Alta — Oficina Editorial Em pré-venda até 27 de Fevereiro. Pormenores aqui .

A nuvem colectiva

Veja-se: por cima de todos nós: a nuvem negra que se instalou. 

Espiritualidade

Não é o monstro — é a distância que em relação a ele manténs.