Mensagens

Da cura e outros males

Porque na verdade — e talvez seja essa a mais dura e resistente das constatações — a nossa importância não justifica uma microscópica parte das angústias que carregamos.

2019 em versão compacta

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Um tradutor literário a caminho da descrença

Trabalha-se, estuda-se, transpira-se, sacrifica-se, exclui-se, abdica-se, insiste-se, resiste-se, exaspera-se, desespera-se, adoece-se, mas faz-se, uma e outra vez, vai-se sempre fazendo, avançando mesmo contra a mão e a corrente, contra toda a força contrária que houver, sempre em nome de um bem que se julga maior. Mas se os honorários avançam no sentido inverso das honrarias, para quê insistir numa missão que será já quiçá uma sorte de ingrata estupidez?

Dos passos no trajecto

«Em breve esquecerás tudo, e em breve serás esquecido.»

Marco Aurélio, Meditações

Qualquer coisa de intermédio

JARDIM-LUTO

é
(talvez)
o vento
que embala — tão gentil
(para a morte)
o coração

Criança e Rosa, Gennady Aygi
Edição: Flâneur
Tradução: Daniel Jonas

Espelho do avesso possível

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Da marginalidade

No fundo, resume-se a isto: Se saísse da periferia deixaria de ver o centro.

Quão mais baixo desceremos?

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Das frases perfeitas

«[...] os gestos arredondam-se quando cuidamos de plantas.»
Herberto Helder Os Passos em Volta

Da condescendência parola (que persiste)

Um debate na televisão sobre um um jogo de futebol realizado no «norte do país» [sic (duplamente)].
Um dos intervenientes diz isto:
«Há que dar os parabéns ao norte pela sua capacidade de organização.»
Todos assentem.
No mesmo dia houve um acontecimento importante em Lisboa.
Do lugar e suas capacidades ninguém disse coisa alguma.
Continuo a olhar para o televisor sem saber o norte.


Dos que passam no tempo sem dele saberem

Reclamas a guerra como mote. Digo-te em resposta — esbarrando sereno na surdez que é origem e sintoma do ego chegado ao osso — que a guerra é sempre o passo em falso que estatela quem não sabe o tempo.

Da recusa

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Beckett revisitado

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Watt, Samuel Beckett
Edição: Assírio & Alvim
Tradução: Manuel Resende

Para arrumar a casa

Para arrumar a casa, criei um site. Ei-lo:

https://manuelalbertovieira.wixsite.com/autor

Mensagem ao burgo

Os escritores portugueses devem colocar-se e viver à margem, devem ser mais perigosos.

(Apropriação - e ligeira alteração - das palavras que Don DeLillo destinou aos autores americanos.)

Quando o Natal acerta nos substantivos

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Neste tempo postiço

Neste tempo postiço, quem não se prostitui é coisa inexistente. A coisa inexistente assiste: imagem pornográfica, slogan petulante, peito cheio e bazófia sonora. Mercado do peixe, mas versão chique — com toques de erudição saloia, para iludir as massas.  Neste tempo postiço, quem se dedica ao filme e não ao cartaz, arrisca nunca lhe saberem o guião. É coisa inexistente que assiste. Mas hoje assistir é o seu contrário: o silêncio é o som que acautela o estrépito de amanhã, que deixa o ruído aos cobardes com pavor da própria sombra. Neste tempo postiço, a resistência que altera o mundo está naquele que não quebra o pacto com a mudez.  Afinal de contas, contas feitas na matemática do mundo, convém que alguém fique de pé no meio das ruínas.

Mahmoud Darwich - Na Presença da Ausência

Rareiam as obras-primas. Proponho-vos uma, cuja tradução me coube em sorte. É uma verdadeira preciosidade de um autor praticamente ausente da nossa paisagem, mas cuja chegada — estou certo disso — lhe alargará os horizontes. Partilho convosco essa sorte. E exorto-vos a que a agarrem. 

Está disponível aqui:

http://www.flaneur.pt/produto/na-presenca-da-ausencia-pre-venda-com-oferta-de-postal/
https://pt-pt.facebook.com/flaneurlivros/

Aprender a Pensar na Era da Estupidez

Quando se julgava esgotado o catálogo de desacertos, eis a ideia peregrina do título póstumo.  Rir-te-ás algures, sábio e querido Borges, mas certamente não de felicidade.

Das visões

Um pensamento: A sombra é tão mais longa quanto mais alta a verticalidade.  Depois outro: Será por isso que te fogem do inquebrável pacto à nascença?  A seguir: Será essa a resposta para o mistério da solidão?  Depois: À semelhança da árvore, farás sombra? Por fim: És a árvore?