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A vela no centro

Noutros tempos, mataria um por um Uma vela a apagar-se de cada vez Mas agora inalo em vez de soprar Porque o fogo aquece o cheiro E tenho os sentidos engelhados de frio Noutros tempos, mataria um por um Mas agora agrada-me ver a vela arder A do centro A maior Veja-se como se extingue pouco a pouco Sem que seja necessário soprar Ou desengelhar o corpo à força de ais Só os imbecis não gostam do cheiro da cera esmagada pelo fogo 

Uma estrela negra

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O nascimento de uma personagem

Esta noite matarei um homem. Maltrata a mulher e a filha, é traficante de rua. Um pulha menor, mas, ainda assim, um pulha. E isso basta-nos. Um desgraçado, muitos dirão, mas nós vemos as coisas pelos olhos da matemática: comparamos desgraças pelo tamanho, analisamos a extensão de quem a inflige e de quem dela é alvo. O fundamento da nossa moral é esse: a medição do infortúnio.

Inícios que agarram pela goela

«Matámos cães. Não por acidente. Foi de propósito, e chamámos a isso a Operação Scooby. Como eu gosto de cães, fartei-me de pensar naquilo. A primeira vez foi por instinto. Ouço o O'Leary dizer "Meu Deus", e vejo um cão esquelético lamber sangue tal como nós tínhamos estado a lamber água de uma tigela. Não era sangue americano mas, mesmo assim, estava um cão a lambê-lo. E acho que aquilo foi a gota de água. A seguir, abrimos a caça aos cães.» Phil Klay, do conto «Fim de missão», incluído no livro Desmobilizados Tradução: Maria do Carmo Figueira Edição: Elsinore

Este mundo não é para os verdadeiros

Se abraçares a verdade — a essencial, que é a verdade do eu —, serás esmagado a cada dia até à extinção. Mas — eis o importante —, depois da tua morte, serás tu o lembrado.  

Da perspectiva

«Duas Anedotas 1. Um homem está sentado na margem de um rio quando de súbito a água começa a subir. A sua esposa e a sua amante são ambas levadas pela corrente. Quem é que ele deve salvar? A esposa. (Porque a sua amante compreenderá sempre.) 1. Um homem está sentado na margem de um rio quando de súbito a água começa a subir. A sua esposa e a sua amante são ambas levadas pela corrente. Quem é que ele deve salvar? » A amante. (Porque a sua esposa nunca compreenderá.) » Jenny Offill, Departamento de Especulações Tradução: José Miguel Silva Edição: Relógio D'Água 

O tradutor

O tradutor não tem tempo O tradutor é criticado por não ter tempo O tradutor explica que ser tradutor é não ter tempo Mas quem o critica não compreende A tradutor não tem sossego Vive com a corda ao pescoço Conta o tempo como o prisioneiro na cela Desejoso de concluir a empresa Sem esbarrar no prazo Para receber o que lhe paga o buraco (Sim, para quem não sabe, o tradutor vive num buraco)       O tradutor trabalha doentiamente Sim, outra verdade Mas de que serve? De nada, como quase tudo no mundo do tradutor Mas o tradutor não reclama essa atenção Modesto como é, reclama somente a reserva Porque (nova verdade) O tradutor é invisível por defeito e definição E isso é do seu agrado Só não é do seu agrado Ser falado apenas naquele instante tão isolado Em que usou a palavra desviada Como se previamente a isso não houvesse uma história de mil sucessos   É este o perigo da invisibilidade: A falha visível passa a ser a def...