Casa - o mais abstracto dos substantivos, porém tão concreto quando ausente. No fundo, é o que todos fazem entre o ventre e o fundo da terra: procurar o abrigo deixado a decoberto no intervalo.
Basta ver as duas faces verticais de um prédio: a fachada - revestida da melhor tinta, do mais higiénico brilho - e a face das traseiras, em cujos quartos todos dormem - velha, rachada, suja e podre. Ruirá em breve a mentira da fachada, já vem ruindo em lume mais-que-brando. A verdade está nas traseiras, onde o plebeu já passa fome para pagar uma cama pensada para o rei.
Quando o mal ou a tragédia nos acontecem, atribuímos à circunstância a culpa de tudo quanto nos angustia. No entanto, quem grita e chora e treme por dentro não é o sujeito fixado no seu lugar e no seu tempo, mas a ausência esquecida de uma mão que o amparasse quando no berço o amor fundamental — por distracção, indiferença, dor própria ou maldade — o negligenciava.