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Neste tempo postiço

Neste tempo postiço, quem não se prostitui é coisa inexistente. A coisa inexistente assiste: imagem pornográfica, slogan petulante, peito cheio e bazófia sonora. Mercado do peixe, mas versão chique — com toques de erudição saloia, para iludir as massas.  Neste tempo postiço, quem se dedica ao filme e não ao cartaz, arrisca nunca lhe saberem o guião. É coisa inexistente que assiste. Mas hoje assistir é o seu contrário: o silêncio é o som que acautela o estrépito de amanhã, que deixa o ruído aos cobardes com pavor da própria sombra. Neste tempo postiço, a resistência que altera o mundo está naquele que não quebra o pacto com a mudez.  Afinal de contas, contas feitas na matemática do mundo, convém que alguém fique de pé no meio das ruínas.

Mahmoud Darwich - Na Presença da Ausência

Rareiam as obras-primas. Proponho-vos uma, cuja tradução me coube em sorte. É uma verdadeira preciosidade de um autor praticamente ausente da nossa paisagem, mas cuja chegada — estou certo disso — lhe alargará os horizontes. Partilho convosco essa sorte. E exorto-vos a que a agarrem. 

Está disponível aqui:

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Aprender a Pensar na Era da Estupidez

Quando se julgava esgotado o catálogo de desacertos, eis a ideia peregrina do título póstumo.  Rir-te-ás algures, sábio e querido Borges, mas certamente não de felicidade.

Das visões

Um pensamento: A sombra é tão mais longa quanto mais alta a verticalidade.  Depois outro: Será por isso que te fogem do inquebrável pacto à nascença?  A seguir: Será essa a resposta para o mistério da solidão?  Depois: À semelhança da árvore, farás sombra? Por fim: És a árvore?

Dos Verões Férteis

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A vida de perfil

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«O Cavalo de Turim», de Béla Tarr

Goodbye, Philip Roth

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Já me restam poucos dos que me fizeram. Hoje é um dia triste. Muito triste.

Medida de equilíbrio

Uma maneira também de saberes onde estás no caminho consiste em pesar em quilogramas o que fizeste. O desespero nada pode contra o rigor numérico. Não esquecer porém que (muito importante) a glória pode ruir quando posta numa balança.

De Lynch e da criação

De Lynch ouvi isto, em resposta ao eterno mistério da criação: «Nada sei. É como se me atirassem pedras do quarto ao lado».  É isso. É precisamente isso.

Aspiração

Saber também que mais depressa se ouvirá a palavra do mudo do que o rasgão na linha da meta.

Da espiritualidade

Mas sobretudo isto: não te julgares pequeno por não veres altura em teu redor.

Birdman, ou a cruel inevitabilidade dos espelhos

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Dos filmes que ficam pela certeza de deles se sair diferente do que quando neles se entrou. A esse crivo, Birdman piscou um olho de troça e indiferença, atravessando-o na serena certeza do que é. Ao argumento rico nas múltiplas camadas interpretativas que guarda junta-se um elenco que convive na perfeita harmonia do desacerto. Com Michael Keaton à cabeça, protagonista de uma narrativa que será uma visão tristemente sardónica da sua biografia cinematográfica. Diz-nos essa visão que há tão mais para além do Homem-Morcego (calem-se, pois, os que se precipitam nos juízos). Que o digam as asas deste Homem-Pássaro, que voam de facto (?). Mas: para a aspiração ou para a tragédia de quem as ostenta? Eis umas das muitas questões que ficam. Arriscaria dizer que estas asas são de homem. E que todos nós temos asas. E que deveríamos atentar neste filme para lhes compreender a função.

Ontem, na Centésima Página

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Ao Luís Mourão, a gratidão pelo raro cruzamento com o homem sábio — esse leitor que observa  e diz sereno como quem guarda uma espécie de mundo inteiro. À Centésima Página, uma palavra de grande estima pelo acolhimento — estar em casa é coisa rara. Aos presentes, o agradecimento pela atenção, franqueza e generosidade do silêncio e da voz.