Mensagens

O trigo e o joio

«Génio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonhos génios como eu, E a História não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
[...]
O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.» «Tabacaria»Álvaro de Campos

Ontem, na Biblioteca Almeida Garrett

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Obrigado a todos quantos ontem marcaram presença na apresentação de Teatro Vertical, na Biblioteca Almeida Garrett. Obrigado também — e muito especialmente — ao Jorge Palinhos, leitor e interlocutor de suma inteligência, perspicácia e lucidez.

Teatro Vertical na Feira do Livro do Porto

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Coisas de sublinhar

«[...] ye walk on white snow where a nosebleed would disturbe the universe [...]»
Tarantula, Bob Dylan Edição: Harper Collins

Do estado actual das coisas

Nematomorfo: parasita que se aloja no interior do hospedeiro e se alimenta das paredes do seu corpo até atingir a idade adulta. Aí chegado, emerge do hospedeiro em zona próxima da água para prosseguir uma vida livre, induzindo aquele que lhe serviu de alimento ao suicídio.  

A Física e a moral

Foi à custa de prostituição repetida, mas não para pagar a renda nem para o pacote de leite chorado pelo filho com fome.  Foi pela vã glória de uma aparição que se pulverizou ao vento do tempo ou do gesto entediado. Por isso importam as notas de rodapé, que, tal como a vida, guardam nos caracteres pequenos as noções fundamentais. Nomeadamente esta: entre a Física e a moral são mais as pontes do que os muros.

Rir no silêncio

Não saem da casa pequena na aldeia porque nela fazem quietos o mundo (na verdade, fazem outras coisas quietos, mas não convém que se saiba). São gigantes na casa sem janelas (de propósito, não vá alguém roubar-lhes a dimensão). Abrem a porta para arejar a verve (para sair o bafio, na verdade, mas eles não sabem, apesar de tudo saberem). Bebem cálices de fel da cor do mel. Alimentam-se de delicadas carícias (em partes secretas, mas não convém que se saiba). Não levantam os pés do chão por compromisso intelectual (por desconhecerem a altura, na verdade, mas aconselha-se reserva). Passam muito tempo com os olhos fechados, para dar tela à inteligência (a tela está em branco, mas é segredo). Na casa fechada na pequena aldeia fazem o mundo: tão universal, tão moderno, tão revolucionário (todos os antónimos, na verdade, mas sabe-se como quem não soubesse). 
De tanto viajarem sem sair do sítio, de tão gigantes na sua casa secreta, de tanto abrirem a porta à frescura da criação, de tanto afag…

Sam Shepard - por tudo quanto me foi dado

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Depois de Crónicas Americanas e Atravessando o Paraíso, lidos em tenra idade, a viagem interior ganhou novos e preciosos caminhos. Obrigado por tudo, Sam Shepard.


Da tradução - Thomas Bernhard

«Uma tradução é um outro livro. Já não tem nada a ver com o original. É um livro daquele que o traduziu. É que eu escrevo em alemão. Depois os livros são-nos enviados para casa e ou dão prazer ou não dão. Quando têm capas horríveis, só nos irritamos, depois folheamo-los, e pronto. Além de um outro título arrevezado, não tem geralmente nada em comum com o que escrevemos. Não é? Não se pode realmente traduzir. Uma peça de música é tocada com as notas que lá estão em toda a parte do mundo. Mas um livro teria de ser em toda a parte, no meu caso, tocado em alemão. Com uma orquestra.»
Kurt Hofmann, Em Conversa com Thomas Bernhard Tradução: José A. Palma Caetano Edição: Assírio & Alvim

O tiro

O tiro a espreitar da culatra. Devagar, porque nestas coisas das letras, a carne é furada em lentidão e o homem sábio nunca é dado a pressas.

Da distância

Percorrida a linha da esquerda à direita da geografia, um continente é um lago, um bairro um oceano. Na cabeça, o espaço está a uma história de distância.

Da topografia

Confortável nos arrabaldes, desculpa-se com a escassez de dinheiro para uma casa no centro da consciência.

O silêncio é o novo estatuto

Dizem-mo repetidamente: escrevo mas não respondem. Tornou-se comum, este hábito de não responder a perguntas que requeiram resposta, de deixar mensagens importantes penduradas.  O que em tempos era sinal de consideração e educação, transfigurou-se hoje numa espécie de prova de estatuto — o estatuto do homem ocupado e acima das coisas menores, sobretudo (arrisco dizer) para aquele que é desocupado e não está acima de nada. Não me venham com a confortável almofada da voracidade dos dias (eu também a vivo). Há sempre um tempo, nem que seja para dizer: De momento, não me é possível responder.  Este silêncio que se tornou prática comum, revelador de uma profunda falta de elevação moral, é para mim um dos mais importantes sintomas do tempo adoecido em que vivemos. Deixar o outro pendurado é ser-se importante, é ser-se grande, é esticar as costas para olhar de cima. Para mim, é estupidez e má-criação. Um irreversível defeito de carácter que, pelo uso, passará a ser parte do carácter normal.…