25/11/16

A inversão das coisas

A mãe, os alicerces
O filho, o telhado
mas
Se perderes a primeira, chove-te
Se perderes o segundo, ruis

23/11/16

Através da lente

A visão do mundo através da lente de uma máquina: tão estática, tão esférica. A carne que envolve o osso. 

09/11/16

O futuro

«Here comes the flood, rivers of mud […]»

08/11/16

EUA

A breves horas do circo com tenda ou a céu aberto.

03/11/16

Confederação de idiotas

Perturbador constatar como, num universo tão vasto, todas as cabeças se regem pela batuta de uma só mão. Vivendo do pavor de morte de não saberem o que fazer se deixadas a sós com o próprio instrumento.

01/11/16

Da recorrência dos sonhos

Numa vastidão deserta cor de fogo, Séneca estende uma veste azul a uma mulher nua. A mulher nua estende um livro a Séneca. Ambos permanecem imóveis. 

29/10/16

Em vias de extinção

Procura-se espécie em vias de extinção. Último elemento encontrado a preocupante distância temporal e geográfica. Designação: "Pessoa de palavra". Identificação: Complexa, mas — acredita-se — possível.

23/10/16

A ordem das coisas

Para que uma vida comece, outra tem de terminar. Para que uma vida recomece, muitas têm de morrer.

16/10/16

12/10/16

Subtilezas da mão

Como um destro a quem pedissem uma carícia com a mão esquerda.

08/10/16

Núcleo

Às vezes, isto: ser-se nuclearmente deslocado. O núcleo sem terra à volta.

21/09/16

Assim, por vezes

Escrever palavras lentas, em frases de lama.

14/09/16

Duas sabedorias

O rapaz lê apressadamente para se aproximar do fim; o velho não passa da primeira página para não se afastar do princípio.

09/09/16

Uma definição certeira

«[...] Se a literatura é o artifício supremo, a tradução é o artifício supremo em segunda mão [...]»

Paulo Faria, no prefácio à edição portuguesa de Suttree, de Cormac McCarthy
Edição: Relógio D'Água

06/09/16

Língua

Também aqui se começa a mudar de língua. A princípio, tolera-se; e poderá inclusive despertar um certo encanto — o da modernidade. 
Mas depois queres falar e ninguém te ouve. Queres caminhar surdo e não tens como. Afinal, só se cala o que o ouvido conhece de cor.   

29/08/16

Dos rituais

Do velho especado à porta do prédio o dia todo, ouço dizer:
«Que velho estranho.»
Ao que o pensamento (nunca a voz) me diz:
«Quantas histórias de coragem te farão descer cinco pisos diariamente?»

04/08/16

Da religião

Diz-se do homem em sofrimento ser inútil ao alívio da dor alheia. Acaso Deus não foi crucificado? 

29/07/16

E depois

E depois há aqueles que dizem a verdade.

23/07/16

Do pudor dos provérbios

(Exclua-se por momentos o espírito.)
O que não nos mata, torna-nos mais aptos a matar.
(Recupere-se agora o espírito, e viva-se no conforto da tradição.)

18/07/16

Definição

Família: substantivo abstracto de origem e definição obscuras.

13/07/16

Uma pérola de Galeano

Depois de meses de leituras insatisfeitas, escassas e algo frustrantes, finalmente deparo, quase por acidente, com uma edição brasileira do grande Eduardo Galeano, cujo Memória do Fogo: Os Nascimentos lera com profundo agrado aquando da sua publicação em Portugal.

Ei-lo, o livro, tão pequeno na dimensão quanto imenso no que guarda:

  

12/07/16

Fora das telas

«Fora das telas, o mundo é uma sombra indigna de confiança.»

Eduardo Galeano
O Livro dos Abraços
Tradução: Eric Nepomuceno

08/07/16

Das escolhas

Entre o filho e o irmão, optou pelo segundo.
«Ao primeiro, deixei as pernas e o coração para andar; ao segundo, faltará o amparo do sangue e da memória até a última morada chegar.»

05/07/16

O mundo a cores

A cegueira, esse superior estado.

29/06/16

Desígnio

Sobreviver ao que o outro morreria.
Praticar o que nenhum outro punho ousaria.
Elevar o espírito à altura do que seria.

26/06/16

Terramoto

Um, ao primeiro sinal do terramoto, viu o coração parar. O outro, ao primeiro sinal do terramoto, agarrou a tábua. O primeiro nasceu no amor; o segundo passou a vida a procurá-lo.

14/06/16

Seres feios

A ficção é vida inteira. Mas tal ilusão só existe na medida em que ela se substitui (ou se antagoniza) àquela que, de tão povoada de seres feios, não tem morada para a serena sabedoria.