21/09/16

Assim, por vezes

Escrever palavras lentas, em frases de lama.

14/09/16

Duas sabedorias

O rapaz lê apressadamente para se aproximar do fim; o velho não passa da primeira página para não se afastar do princípio.

09/09/16

Uma definição certeira

«[...] Se a literatura é o artifício supremo, a tradução é o artifício supremo em segunda mão [...]»

Paulo Faria, no prefácio à edição portuguesa de Suttree, de Cormac McCarthy
Edição: Relógio D'Água

06/09/16

Língua

Também aqui se começa a mudar de língua. A princípio, tolera-se; e poderá inclusive despertar um certo encanto — o da modernidade. 
Mas depois queres falar e ninguém te ouve. Queres caminhar surdo e não tens como. Afinal, só se cala o que o ouvido conhece de cor.   

29/08/16

Dos rituais

Do velho especado à porta do prédio o dia todo, ouço dizer:
«Que velho estranho.»
Ao que o pensamento (nunca a voz) me diz:
«Quantas histórias de coragem te farão descer cinco pisos diariamente?»

04/08/16

Da religião

Diz-se do homem em sofrimento ser inútil ao alívio da dor alheia. Acaso Deus não foi crucificado? 

29/07/16

E depois

E depois há aqueles que dizem a verdade.

23/07/16

Do pudor dos provérbios

(Exclua-se por momentos o espírito.)
O que não nos mata, torna-nos mais aptos a matar.
(Recupere-se agora o espírito, e viva-se no conforto da tradição.)

18/07/16

Definição

Família: substantivo abstracto de origem e definição obscuras.

13/07/16

Uma pérola de Galeano

Depois de meses de leituras insatisfeitas, escassas e algo frustrantes, finalmente deparo, quase por acidente, com uma edição brasileira do grande Eduardo Galeano, cujo Memória do Fogo: Os Nascimentos lera com profundo agrado aquando da sua publicação em Portugal.

Ei-lo, o livro, tão pequeno na dimensão quanto imenso no que guarda:

  

12/07/16

Fora das telas

«Fora das telas, o mundo é uma sombra indigna de confiança.»

Eduardo Galeano
O Livro dos Abraços
Tradução: Eric Nepomuceno

08/07/16

Das escolhas

Entre o filho e o irmão, optou pelo segundo.
«Ao primeiro, deixei as pernas e o coração para andar; ao segundo, faltará o amparo do sangue e da memória até a última morada chegar.»

05/07/16

O mundo a cores

A cegueira, esse superior estado.

29/06/16

Desígnio

Sobreviver ao que o outro morreria.
Praticar o que nenhum outro punho ousaria.
Elevar o espírito à altura do que seria.

26/06/16

Terramoto

Um, ao primeiro sinal do terramoto, viu o coração parar. O outro, ao primeiro sinal do terramoto, agarrou a tábua. O primeiro nasceu no amor; o segundo passou a vida a procurá-lo.

14/06/16

Seres feios

A ficção é vida inteira. Mas tal ilusão só existe na medida em que ela se substitui (ou se antagoniza) àquela que, de tão povoada de seres feios, não tem morada para a serena sabedoria.     

10/06/16

Labuta

Chomsky, cigarros e café. De permeio a existência, essa coisa oblíqua.

04/06/16

Doutrina

Have the right to have a rest, have the rest to have a right.

02/06/16

As solas

Ei-las, em abundância: as minúsculas fracções de matéria preta que poluem o chão (pois que dele não se elevam). 
Ei-las também: as solas. Que se encarregam de as aniquilar a cada passo.
A cabeça, essa, permanece alta.

28/05/16

Projector

A sombra que se projecta é sombra apenas. Se reparares bem, é tão tua quanto de ti foge. Não sobrestimes a bidimensionalidade. Pode desaparecer com um simples toque no interruptor.

25/05/16

Dúvida

Como acordar um corpo desperto em tão profundo sono.

24/05/16

Respiração

Fechar a porta e abrir a janela. A vida é intrusão. E o mundo respira-se melhor de cima.

20/05/16

Trasgos

Tontos os patéticos anões de espírito que não resistem à saída da feia toca.

17/05/16

Inversão

Viver no avesso da geografia, viver na geografia do avesso.

11/05/16

A protecção disfarçada de ameaça

«There is a crack in everything.
That's how the light gets in.»

Leonard Cohen, Anthem

06/05/16

A investigação da mão

A mão dócil que afaga. E que agora esmaga. A mão espiritual — aquela que aniquila com serenidade e consentimento. Ou melhor: que desvia. No espírito, a aniquilação é desvio calmo.

A minha mão é como se batesse (ou acariciasse) com ela — uma variação possível daquele homem-Pessoa. 

28/04/16

O fascinante e atormentador túnel

«Kipling observa que a um escritor é-lhe permitido urdir fábulas, mas está-lhe vedado saber qual é a moral da história.»

Jorge Luis Borges, Biblioteca Pessoal
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Edição: Quetzal

26/04/16

Da nobreza

Nobre é aquele que ao sofrimento responde com a coragem do silêncio.