22/03/17

Princípio

Do mal do Homem poderia escrever mil prefácios, mil ensaios, mil epílogos. Mas por agora prefiro contemplar a última gota que cai da última folha verde daquela última árvore. Para ver como cai nas últimas costas que passam. Para que os meus olhos sejam a última testemunha do princípio. 

18/03/17

Mil metros



Virgilio Piñera, O Grande Baro e Outras Histórias
Selecção e tradução: Rui Manuel Amaral
Edição: Livraria Snob / Colecção Pedante 

08/03/17

A Fábula de Daniil Kharms



Em Três Horas Esquerdas
Tradução e apresentação: Júlio Henriques
Edição: FLOP

21/02/17

A importância dos clichés

Toda a causa tem uma consequência; toda a consequência tem uma causa. Quantos não sabem o que lhes ditou a ruína ou a glória?

13/02/17

Raiva

A raiva, esse tão ignorante combustível.

09/02/17

Linha da meta

Tão poluídos os caminhos até à saída. Até ao som e ao gesto. Dois (por vezes) contrários do início, onde se sabe estar a origem — como o atleta que agora atravessa a meta, em suor e falta de ar e cara feia, tão outro da linha partida. 

03/02/17

Da matemática

A soma de todos os erros dá a coisa certa.

21/01/17

Da saturação

ossos do ofício, dizem
mas,
(vos garanto)
este ofício não tem ossos. 

17/01/17

Caderno de Mentiras editado em Itália

Numa altura em que se aproxima a publicação de um novo livro meu em Portugal, Caderno de Mentiras é editado em Itália pela Wordbridge Edizioni, com tradução de Giacomo Falconi.





07/01/17

Da mentira

«The power of the lie, Daniel said. Always seductive to the powerless. But how is my being a retired dancer going to help in any real way with your feelings of powerlessness?»

Autumn, Ali Smith


28/12/16

Tudo ainda tão igual

Dez. 1913

Sá-C[arneiro]

O que v[ocê] foi fazer; Sá-Carneiro! O que você foi fazer...!

Pois v[ocê] não vê que para esta gente o perceber v[ocê] precisa escrever como o Dantas, como o Alfredo da Cunha, como o † ?

Pois v[ocê] não vê que para esta gente o apreciar v[ocê] precisa ir fazer conferencias ao Brasil como o J[oão] de B[arros], asnear na capital como o Manso que veio de Coimbra.

Pois v[ocê] não vê que para esta gente o elogiar v[ocê] tem que andar a bajulal-os na rua e nos cafés, como fazem os Dantas, os Cunhas, os Sousas Pintos?

Já o Mário Beirão cahiu em escrever, e agora ahi vem você e publica-se. Depois — peor asneira — v[ocê] escreve europeiamente! V[ocê] escreve sem vêr a patria e a sua obra, que eu creio genial, esbarra com o provincianismo constante da n[ossa] attitude. Para nós o universo está entre Mesão e Villa Real de Santo Antonio.

Ó desgraçado, ó desgraçado!... Isso é bom para França, para Inglaterra, para a Allemanha... Lá os Joões de Barros escrevem á machina nos escriptorios comerciaes, os Julios Dantas estão por detraz dos balcões das lojas dos retrozeiros, e os Ruys Chiancas, ao mais que ascendem, é a vender bilhetes nos guichets dos theatros...

Ah desgraçado! desgraçado!

Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro

Aqui, na edição de Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarra (Tinta-da-China, 2015) 

22/12/16

Virgilio Piñera ao alto, Snob e Pedante

Ei-lo em Portugal por boas mãos. Livro maior que faz sangrar.



Edição: Colecção Pedante
Selecção e tradução: Rui Manuel Amaral

13/12/16

A mais certeira definição

«O conto é uma gaiola à procura de um pássaro.»

Franz Kafka

25/11/16

A inversão das coisas

A mãe, os alicerces
O filho, o telhado
mas
Se perderes a primeira, chove-te
Se perderes o segundo, ruis

23/11/16

Através da lente

A visão do mundo através da lente de uma máquina: tão estática, tão esférica. A carne que envolve o osso. 

11/11/16

09/11/16

O futuro

«Here comes the flood, rivers of mud […]»

08/11/16

EUA

A breves horas do circo com tenda ou a céu aberto.

03/11/16

Confederação de idiotas

Perturbador constatar como, num universo tão vasto, todas as cabeças se regem pela batuta de uma só mão. Vivendo do pavor de morte de não saberem o que fazer se deixadas a sós com o próprio instrumento.

01/11/16

Da recorrência dos sonhos

Numa vastidão deserta cor de fogo, Séneca estende uma veste azul a uma mulher nua. A mulher nua estende um livro a Séneca. Ambos permanecem imóveis. 

29/10/16

Em vias de extinção

Procura-se espécie em vias de extinção. Último elemento encontrado a preocupante distância temporal e geográfica. Designação: "Pessoa de palavra". Identificação: Complexa, mas — acredita-se — possível.

23/10/16

A ordem das coisas

Para que uma vida comece, outra tem de terminar. Para que uma vida recomece, muitas têm de morrer.

16/10/16

A importância dos parênteses invisíveis

Contra(mão), contra(peso), contra(luz).

12/10/16

Subtilezas da mão

Como um destro a quem pedissem uma carícia com a mão esquerda.

08/10/16

Núcleo

Às vezes, isto: ser-se nuclearmente deslocado. O núcleo sem terra à volta.

21/09/16

Assim, por vezes

Escrever palavras lentas, em frases de lama.

14/09/16

Duas sabedorias

O rapaz lê apressadamente para se aproximar do fim; o velho não passa da primeira página para não se afastar do princípio.