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A vida de perfil

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«O Cavalo de Turim», de Béla Tarr

Goodbye, Philip Roth

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Já me restam poucos dos que me fizeram. Hoje é um dia triste. Muito triste.

Medida de equilíbrio

Uma maneira também de saberes onde estás no caminho consiste em pesar em quilogramas o que fizeste. O desespero nada pode contra o rigor numérico. Não esquecer porém que (muito importante) a glória pode ruir quando posta numa balança.

De Lynch e da criação

De Lynch ouvi isto, em resposta ao eterno mistério da criação: «Nada sei. É como se me atirassem pedras do quarto ao lado».  É isso. É precisamente isso.

Aspiração

Saber também que mais depressa se ouvirá a palavra do mudo do que o rasgão na linha da meta.

Da espiritualidade

Mas sobretudo isto: não te julgares pequeno por não veres altura em teu redor.

Birdman, ou a cruel inevitabilidade dos espelhos

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Dos filmes que ficam pela certeza de deles se sair diferente do que quando neles se entrou. A esse crivo, Birdman piscou um olho de troça e indiferença, atravessando-o na serena certeza do que é. Ao argumento rico nas múltiplas camadas interpretativas que guarda junta-se um elenco que convive na perfeita harmonia do desacerto. Com Michael Keaton à cabeça, protagonista de uma narrativa que será uma visão tristemente sardónica da sua biografia cinematográfica. Diz-nos essa visão que há tão mais para além do Homem-Morcego (calem-se, pois, os que se precipitam nos juízos). Que o digam as asas deste Homem-Pássaro, que voam de facto (?). Mas: para a aspiração ou para a tragédia de quem as ostenta? Eis umas das muitas questões que ficam. Arriscaria dizer que estas asas são de homem. E que todos nós temos asas. E que deveríamos atentar neste filme para lhes compreender a função.

Ontem, na Centésima Página

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Ao Luís Mourão, a gratidão pelo raro cruzamento com o homem sábio — esse leitor que observa  e diz sereno como quem guarda uma espécie de mundo inteiro. À Centésima Página, uma palavra de grande estima pelo acolhimento — estar em casa é coisa rara. Aos presentes, o agradecimento pela atenção, franqueza e generosidade do silêncio e da voz.

Teatro Vertical na Centésima Página - com Luís Mourão

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Beckett sublinhado

«Conheço essas pequenas frases que parecem não ser nada e que, uma vez admitidas, são capazes de empestar uma língua inteira. Nada é mais real do que o nada. Saem do abismo e não descansam enquanto para lá não arrastam tudo.»
Malone Está a Morrer, Samuel Beckett Tradução: Miguel Serras Pereira Edição: Dom Quixote

Da escrita

Da experiência colho esta certeza: mais do que as palavras escritas, importam aquelas que — por generosidade e respeito — foram amputadas ou mantidas em segredo.

Esquecer a tabuada, relembrar a descoberta

«Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essa páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe…

Ontem, Teatro Vertical na Flâneur

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Ao Arnaldo e à Cátia, a gratidão pelo convite e pelo acolhimento; ao Pedro Eiras, uma palavra de apreço pela leitura a fundo, a montante, a jusante, de todos os lados — e pela generosidade da partilha também; aos presentes, o agradecimento por estarem e se disporem a ouvir e a participar, fazendo do livro o que dele se espera — um organismo vivo.