18/06/17

Da importância das coisas

Quando essa bela e feérica cor põe mais de sessenta vidas a preto e branco, que mais importa? Tudo é nada. Convém não esquecer. Tudo é nada.

13/06/17

Da lúcida estranheza das coisas

Passeia com o espelho na mão e sorri às vestes de rei que o reflexo lhe devolve. Atrás de si caminha uma comitiva de homens minúsculos, não são anões, são homens grandes mas em ponto pequeno, homens à lupa, menores, também no tamanho. É isso que o espelho mostra, atrás da coroa. E o sorriso expande-se diante do espelho na mão, um sorriso onde acaba de cair uma sombra de carvão.

De cima, nas varandas, todos estranham a criatura suja e esfarrapada que passeia de punho no ar com cães de sarna e raiva a lamberem-lhe os calcanhares.

Mais acima, alguém esfrega uma folha de papel com uma borracha. Mas já é tarde. 

     

08/06/17

Três categorias

Disse um sonho:

Há três categorias de homens: os bons, os maus e os intermédios.

Os bons estão, pela ingenuidade, condenados.

Os maus estão, pelo mundo, abençoados.

Os intermédios estão, pelo meio, sufocados.

Quem o disse foi um sonho. Mas nele, estranhamente, só os últimos sobreviveram à catástrofe.

27/05/17

Q

Quando o pára-quedas está por um fio cansado, bastará a mais leve brisa.
Quão violenta será a queda do que se julga em alto voo.
Quão risível (e enternecedora) a máscara que dele se descolará. 
Quase tanto como o rosto vazio que em vão desespero a tentará recuperar.

18/05/17

Chris Cornell (1964-2017)

Há mortes que não deviam existir. 
Por tudo quanto Chris Cornell significou nos meus verdes anos, por tudo quanto os Soundgarden me deram a ouvir, a saber e a ser, parte de mim também vai — colhida desse tempo fundamental que é o infinito jardim de possibilidades da tenra juventude.
Estão a morrer-me tão depressa os que importam.
Obrigado.


16/05/17

A elevação não é um escadote

Houve um tempo em que era assim: subir para ver as coisas de cima.
A aspiração, porém, agora é outra: ver as coisas de baixo, de frente, dos lados, de dentro. 
A subida é sempre um artifício, exercício ilusório em metal que não resiste à ferrugem do tempo.   

01/05/17

Teatro Vertical - novo livro em pré-venda


Caros leitores,

Gostaria de partilhar convosco a publicação do meu novo livro, Teatro Vertical — o segundo volume da Colecção Pedante, dada à estampa pela SNOB e inaugurada por Virgilio Piñera.

Para além do texto, no livro encontrarão o singular traço do ilustrador Sebastião Peixoto, que aceitou a proposta por mim lançada.    

Durante 15 dias, contando a partir de hoje, o livro estará em pré-venda com desconto. Quem o comprar nesta fase por 12€, recebê-lo-á em casa sem custos adicionais e figurará — se for essa a sua vontade — na parte final do livro, dedicada aos agradecimentos, bastando para isso seguir as instruções que encontram no link em baixo:




Exercício

Fingir a cegueira enquanto o cortejo desfila. Tão sensato e apertado exercício. 

21/04/17

13/04/17

O rectângulo de papel

Um homem que carregava nos olhos mil mortes. Aproximei-me. Não tive como o evitar.
Olhei-o.
Olhou-me.
Disse-lhe:
Sei bem o que está por trás.
Ele disse:
Isto?
Apontava para um rectângulo de papel pousado atrás dos andrajos que se deitavam no passeio.
Não falei. Não percebi. Falava-lhe das mil mortes atrás dos olhos.
Olhou-me.
Olhei-o.
Ele disse:
Agrada-te?
Encolhi os ombros. Não percebi
Apontou para o rectângulo de papel. Tinha muitas imagens. Rostos, percebi ao semicerrar os olhos.
Afastei-me.
Acelerei o passo à medida que me afastava.
A cada passo um novo rosto do rectângulo.
A cada novo rosto a consciência.
Arrepio.
Calafrio.
Alguém me travou a marcha.
Era uma mulher. Cara de rugas. Postura de estátua.
Olhou-me.
Disse-me:
Sei bem o que está por trás.
Arrepio.
Calafrio.
Com o dedo indicador desenhou no ar um rectângulo. Vários círculos dentro dele.
Disse-me:
As coisas que sempre foste mas nunca serás.
Mil mortes atrás dos olhos passei a carregar.
    


  

30/03/17

Da espera

Socorre-te sempre dos sábios antigos: nunca esperes. Tudo quanto vier será vida, tudo quanto não vier será nada.

22/03/17

Princípio

Do mal do Homem poderia escrever mil prefácios, mil ensaios, mil epílogos. Mas por agora prefiro contemplar a última gota que cai da última folha verde daquela última árvore. Para ver como cai nas últimas costas que passam. Para que os meus olhos sejam a última testemunha do princípio. 

18/03/17

Mil metros



Virgilio Piñera, O Grande Baro e Outras Histórias
Selecção e tradução: Rui Manuel Amaral
Edição: Livraria Snob / Colecção Pedante 

08/03/17

A Fábula de Daniil Kharms



Em Três Horas Esquerdas
Tradução e apresentação: Júlio Henriques
Edição: FLOP

21/02/17

A importância dos clichés

Toda a causa tem uma consequência; toda a consequência tem uma causa. Quantos não sabem o que lhes ditou a ruína ou a glória?

13/02/17

Raiva

A raiva, esse tão ignorante combustível.

09/02/17

Linha da meta

Tão poluídos os caminhos até à saída. Até ao som e ao gesto. Dois (por vezes) contrários do início, onde se sabe estar a origem — como o atleta que agora atravessa a meta, em suor e falta de ar e cara feia, tão outro da linha partida. 

03/02/17

Da matemática

A soma de todos os erros dá a coisa certa.

21/01/17

Da saturação

ossos do ofício, dizem
mas,
(vos garanto)
este ofício não tem ossos. 

17/01/17

Caderno de Mentiras editado em Itália

Numa altura em que se aproxima a publicação de um novo livro meu em Portugal, Caderno de Mentiras é editado em Itália pela Wordbridge Edizioni, com tradução de Giacomo Falconi.





07/01/17

Da mentira

«The power of the lie, Daniel said. Always seductive to the powerless. But how is my being a retired dancer going to help in any real way with your feelings of powerlessness?»

Autumn, Ali Smith


28/12/16

Tudo ainda tão igual

Dez. 1913

Sá-C[arneiro]

O que v[ocê] foi fazer; Sá-Carneiro! O que você foi fazer...!

Pois v[ocê] não vê que para esta gente o perceber v[ocê] precisa escrever como o Dantas, como o Alfredo da Cunha, como o † ?

Pois v[ocê] não vê que para esta gente o apreciar v[ocê] precisa ir fazer conferencias ao Brasil como o J[oão] de B[arros], asnear na capital como o Manso que veio de Coimbra.

Pois v[ocê] não vê que para esta gente o elogiar v[ocê] tem que andar a bajulal-os na rua e nos cafés, como fazem os Dantas, os Cunhas, os Sousas Pintos?

Já o Mário Beirão cahiu em escrever, e agora ahi vem você e publica-se. Depois — peor asneira — v[ocê] escreve europeiamente! V[ocê] escreve sem vêr a patria e a sua obra, que eu creio genial, esbarra com o provincianismo constante da n[ossa] attitude. Para nós o universo está entre Mesão e Villa Real de Santo Antonio.

Ó desgraçado, ó desgraçado!... Isso é bom para França, para Inglaterra, para a Allemanha... Lá os Joões de Barros escrevem á machina nos escriptorios comerciaes, os Julios Dantas estão por detraz dos balcões das lojas dos retrozeiros, e os Ruys Chiancas, ao mais que ascendem, é a vender bilhetes nos guichets dos theatros...

Ah desgraçado! desgraçado!

Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro

Aqui, na edição de Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarra (Tinta-da-China, 2015) 

22/12/16

Virgilio Piñera ao alto, Snob e Pedante

Ei-lo em Portugal por boas mãos. Livro maior que faz sangrar.



Edição: Colecção Pedante
Selecção e tradução: Rui Manuel Amaral

13/12/16

A mais certeira definição

«O conto é uma gaiola à procura de um pássaro.»

Franz Kafka

25/11/16

A inversão das coisas

A mãe, os alicerces
O filho, o telhado
mas
Se perderes a primeira, chove-te
Se perderes o segundo, ruis

23/11/16

Através da lente

A visão do mundo através da lente de uma máquina: tão estática, tão esférica. A carne que envolve o osso. 

11/11/16