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A mostrar mensagens de Novembro, 2012

Some are born to sweet delight, some are born to endless night

O único antídoto para a maldita (ou bendita?) hiperconsciência é o paroxismo.  Não esquecer, contudo, as potencialidades da paz química.

Burn it, Montag

«Colored people don't like Little Black Sambo. Burn it. White people don't feel good about Uncle Tom's Cabin. Burn it. Someone's written a book on tobacco and cancer of the lungs? The cigarette people are weeping? Burn the book. Serenity, Montag. Peace, Montag. Take your fight outside. Better yet, into the incinerator. Funerals are unhappy and pagan? Eliminate them, too. Five minutes after a person is dead he's on his way to the Big Flue, the Incinerators serviced by helicopters all over the country. Ten minutes after death a man's a speck of black dust. Let's not quibble over individuals with memoriams. Forget them. Burn all, burn everything. Fire is bright and fire is clean.»
Ray Bradbury, Fahrenheit 451 Edição: Simon & Schuster

Paper burns at Fahrenheit 451, but so do people

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"O Poldro", de Mikhail Cholokhov

«Os cereais estalavam na penumbra silenciosa, um raio de Sol oblíquo penetrava por uma frincha da porta da cavalariça e desfazia-se em grãozinhos dourados, como se tivesse sido amolado. A luz que batia na face esquerda de Trafime matizava-lhe de vermelho o bigode ruivo e a barba por fazer; as pregas da boca semelhavam regos tortos e escuros. O poldro, patazinhas delgadas e felpudas, parecia um cavalinho de madeira. - Mato-o? - O polegar de Trafime, carcomido pelo tabaco, curvou-se na direcção do poldro. A égua revirou o globo ocular, tinto de sangue, e piscou maliciosamente um olho ao dono.»
Mikhail Cholokov, O Rio e a Guerra Edição: Campo das Letras Tradução: Alexandre Bazine (com colaboração de José Augusto)

Um poema de Manuel António Pina

«Só mais um dia,
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro,
um dia bastaria,
em prosa que fosse.

Mas dá-me para a melancolia,
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas
de pão na mesa, as falhas
da pintura no tecto,
as vozes das visitas, despropositadas,
sinto-me sujo como um objecto,
desapegado, desarrumado.

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
- no quarto e no coração.»

Manuel António Pina, Todas as Palavras
Edição: Assírio & Alvim