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A mostrar mensagens de Janeiro, 2012

Um discurso sublime

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Eis um dos muitos motivos pelos quais o senhor Cohen será sempre um dos meus mestres maiores. 



Cisão

A norte, a chuva não pára.
    Querem sair à rua para comprar comida, mas não há dinheiro nem comida. E chove muito, nenhuma rua é transitável.
    A sul, poucos sabem. E os que sabem, dormem tranquilamente.
    — Quando isto passar, havemos de ir para sul.
    Em resposta, o marido bateu-lhe.

Eduardo Galeano (A linguagem)

A linguagem
«O Pai Primeiro dos guaranis ergueu-se na escuridão, iluminado pelos reflexos do seu próprio coração, e criou as chamas e a ténue neblina. Criou o amor, e não tinha a quem o dar, criou a linguagem, mas não tinha quem a escutasse.     Então encomendou às divindades que construíssem o mundo e que se encarregassem do fogo, do nevoeiro, da chuva e do vento. E entregou-lhes a música e as palavras do hino sagrado, para que dessem vida às mulheres e aos homens.     Assim o amor fez-se comunhão, a linguagem ganhou vida e o Pai Primeiro remiu a sua solidão. Ele acompanha os homens e as mulheres que caminham e cantam.
Já estamos pisando esta terra,     já estamos pisando esta terra reluzente.»
Eduardo Galeano, Memória do Fogo - Os Nascimentos Edição: Livros de Areia Tradução: António Marques

Adeus, Theo Angelopoulos

Nunca esquecerei o que senti ao sair da projecção de «A Eternidade e Um Dia». Lembro-me de não conseguir pronunciar uma única palavra durante horas. E lembro-me da estranha certeza de que, dali em diante, não seria a mesma pessoa.     Ao mais importante cineasta dos meus verdes anos, um sentido adeus.

Who by Fire

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Aquele que nunca será

Como aqueles que, olhando repetida e obsessivamente o que invejam, recalcam a própria miséria. Até ao ponto em que nem para o gesto vaidoso da autocomiseração resta espaço.

Persona

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Ontem foi assim, num regresso a Bergman. Depois, fico mudo.

Elvin Jones is so fucking cool

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Contradizer o ditado

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Voltar, sempre, a este lugar onde - ainda não sei porquê - sou feliz. Como hoje.

Não a uma morte anunciada

As livrarias independentes estão a fechar. As que ainda resistem, limitam-se a esperar a morte anunciada - tristes, impotentes, mas que, com a coragem que a dignidade reivindica, se mantêm verticais no cadafalso. Nos rostos dessas livrarias cronometram-se os segundos até ao momento em que nada lhes valerá. Percebe-se-lhes a angustia em cada gesto, não é preciso estar muito atento.     Tombam uma a uma, como peças de dominó em câmara lenta. A minha favorita fechou as portas recentemente, mas quero acreditar que o fez para se proteger desta poderosa contramão que varre tudo à sua frente. Por vezes, a cedência ao medo é o principal sinal de inteligência, e como não há mal que dure para sempre, quero também acreditar que os livros serão preservados nesse acolhedor bunker que um dia se abrirá para nos devolver o seu precioso e íntimo tesouro.     Entretanto, permito-me ser ingénuo e encontrar conforto na paciência, solidária. Até porque quem perdeu por completo a ingenuidade, perdeu (pe…

Mário-Henrique Leiria

«No campo da sua acção
todo o verbo cria o que afirma»

   «- Mais dez - apostou Giorky, com as cartas bem seguras na mão.    - Esses e mais trinta - declarou Ben-Ari, empurrando as fichas para a frente.    - Passo. - Juanito pôs as cartas na mesa.    - Pago pra ver, diabos me levem - rosnou Eliezar, sem fichas ao lado do maço de cigarros.    Quando a porta da sala se abriu, todos viraram a cabeça.    Astaroth entrou. Fechou a porta cuidadosamente, não fosse entalar o rabo, e pôs a coroa em cima da mesa.    - Vamos - disse, olhando, distante, para Eliezar.    Eliezar levantou-se, é óbvio.    Astaroth tornou a pôr a coroa na cabeça e abriu a porta.    Saíram os dois.     Astaroth fechou de novo a porta, com extremo cuidado, não fosse entalar o rabo.»

Soon I will be president

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A palavra Homem

A palavra Homem


A palavra Homem, como vocábulo
no lugar que é o seu
no dicionário de Morais:
entre hombridade e homenagem.


A cidade
velha e nova,
muito animada, com árvores
também
e carros, aqui


ouço a palavra, o vocábulo
ouço-o muitas vezes aqui, podia
dizer em que bocas, podia começar 
a contá-las.


Onde não há amor
não pronuncies essa palavra.

Johannes Bobrowski, poema incluído em Como Um Respirar
Edição: Cotovia
Selecção, tradução, introdução e notas: João Barrento

Um conselho

«A luta com o teu "eu" escondido, ou "eus", favorece a tua arte; essas emoções funcionam como o combustível que alimenta a escrita e torna possível horas, dias, semanas, meses e anos do que aos outros, à distância, terá o aspecto de "obra feita". Sem estes impulsos incompreendidos, pode muito bem acontecer que sejas uma pessoa aparentemente mais feliz, e um cidadão deveras envolvido na tua comunidade, mas é muito pouco provável que consigas criar algo de substancial.»
A Fé De Um Escritor, Joyce Carol Oates Edição: Casa Das Letras Tradução: Maria João Lourenço

Kissing The Sun (The Young Gods)

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Um preâmbulo para o ensaio de 2012.